Avaliação e Compilação da 5ª Blogagem Coletiva #desarquivandoBR

Por Niara de Oliveira

Mais uma blogagem coletiva #desarquivandoBR, a quinta, e dessa vez ampliamos muito nosso alcance. Não por acaso. Alguns dias antes de propormos mais esse esforço conjunto pela abertura dos arquivos secretos da ditadura militar, pela Comissão da Verdade e pela revisão da Lei da Anistia, o MPF ingressou na justiça com ações criminais visando responsabilizar alguns agentes do Estado — e, por consequência, o próprio Estado — por algumas das violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura, mais especificamente sequestro e ocultação de cadáver.

Além do empenho do MPF, o Brasil foi surpreendido no dia 26 de março pelos escrachos organizados e liderados pelo Levante Popular da Juventude. Nos atos, realizados em sete capitais, jovens fizeram instalações artísticas para evidenciar o horror da tortura e fizeram protestos em frente à casa e trabalho de torturadores. Alguns tiveram suas casas marcadas lembrando aos vizinhos que ali não mora um pacato e inofensivo cidadão, mas um criminoso que ainda não prestou contas à justiça por seus crimes. Os escrachos evidenciaram também a leniência da justiça, Estado e sociedade que nos coloca como o “único país sul-americano onde torturadores nunca foram julgados, onde não houve justiça de transição, onde o Exército não fez um mea culpa de seus pendores golpistas” (Edson Teles e Vladimir Safatle, em O QUE RESTA DA DITADURA). Para quem achou incoerência ou contradição cometer ou apoiar essa “violência” contra velhinhos e um desrespeito aos direitos humanos, leiam o texto do historiador Carlos Fico onde explica porque ele apoia os escrachos.

As ações do MPF, os escrachos dos jovens no #LevanteContraTortura somados à indignação que gerou um ato público diante do Clube Militar no dia da comemoração do golpe de 64 pelas viúvas da ditadura, no Rio de Janeiro, foram o combustível dessa 5ª blogagem coletiva. Ajudou também termos organizado e estruturado um pouco melhor o #desarquivandoBR. Agora temos o blog, o Diário #desarquivandoBR (jornal eletrônico composto a partir das notícias postadas no twitter com a hashtag), uma fan page no Facebook e um perfil no twitter (@desarquivandoBR). Todas essas iniciativas agregaram muito e fizeram nossa mensagem chegar a pessoas que nem sabiam ainda da existência desse movimento.

Alguns números. Na nossa fan page na semana de 26/03 a 1º/04 atingimos 406.697 (confira aqui) pessoas e tivemos 2.125 pessoas falando sobre o assunto e tivemos nesses nossos 18 dias de presença no Facebook quase mil pessoas que curtiram nossa página. Temos pouco mais de 200 seguidores no twitter, mas a grande maioria contribui na manutenção da hashtag. No dia 31 de março atingimos quase 1000 visitas aqui no blog e nunca tivemos tantos posts participantes numa mesma blogagem. Foram 52 no total que tiveram como tema principal a indignação com a tortura, desaparecimentos e impunidade, e a ampla maioria vieram de blogueiros que ainda não conhecíamos. Realizamos dois tuitaços do #desarquivandoBR, nas noites de 31/03 e 1º/04 onde quem participou não entendeu até agora como não entrou nos Trends Topics do Brasil no twitter.

Tudo isso só faz aumentar nossa disposição na luta pela abertura dos arquivos secretos da ditadura militar, pela investigação dos crimes e violações de direitos humanos cometidos pelo Estado brasileiro contra cidadãos, pela localização dos corpos e restos mortais dos desaparecidos políticos, e pela revisão da Lei da Anistia para que se possa processar e punir criminalmente os torturadores, além de responsabilizar o próprio Estado pelos crimes de tortura, assassinato e desaparecimento forçado no período entre 1964 e 1979.

Lembramos que a Lei da Anistia deverá ser julgada nessa segunda semana de abril pelo STF e que estaremos atentos e mobilizados. Não conseguiu participar da blogagem? Escreva seu post agora. Essa é uma luta de muitos dias e que precisa de muito mais pessoas comprometidas. Se comprometa, não conosco, mas com a verdade e a justiça.

Antes mesmo da blogagem coletiva começar oficialmente já tinham posts publicados com referência ao #desarquivandoBR e seus temas afins. São eles:

“Dénies L’horreur, Rosenfield!” — Murilo Duarte Costa Corrêa

A finalidade da Comissão da Verdade não pode nem deve ser “imparcial” (o que significa desideologizada, no vocabulário de Rosenfield) porque desempenha uma função institucional: apurar as responsabilidades do Estado brasileiro em graves violações de Direitos Humanos. Essa é uma função internacional e historicamente reconhecida a toda Comissão da Verdade, e obedece à determinação da Corte Interamericana de Direitos Humanos, como lembra Pádua Fernandes. A não ser sob o ponto de vista normativo, da perspectiva dos arranjos de forças não há imparcialidade possível para investigar o passado, pois o passado não se produziu fora dos campos cerrados das condições sociais, econômicas, governamentais e também ideológicas que permitiram sua singular emergência. A desejada imparcialidade e a defesa dos militares está garantida pelo devido processo penal – o mesmo que os Tribunais Militares não respeitaram para condenar dissidentes políticos.”

Comissões da Verdade no mundo — Sílvia Sales

“Uruguai — Em abril de 2011, a Câmara de Deputados do Uruguai aprovou a norma que declara que os crimes cometidos durante a ditadura militar são de lesa humanidade e, portanto, imprescritíveis. A sua sanção é o primeiro passo para derrubar a lei uruguaia que anistiava os militares e policiais acusados por crimes cometidos durante a ditadura de 1973 a 1985. A medida resgata a ação punitiva do Estado, permitindo ao Poder Judiciário que siga com os processos envolvendo violações dos direitos humanos. A iniciativa havia sido aprovada antes no Senado.
A legislação representa o primeiro passo para anular a Lei de Caducidade, vigente desde março de 1985 e cuja revogação foi tentada sem êxito em duas consultas populares: em 1989 e 2009.”

Sobre a Lei da Anistia e a possibilidade de punição dos torturadores — Niara de Oliveira

“Algo mudou no cenário e no horizonte da investigação dos crimes cometidos pelo Estado brasileiro durante a ditadura militar a partir do dia 1º de março de 2012. A jornalista Míriam Leitão numa reportagem especial na Globo News sobre a intenção do Ministério Públicar Militar investigar o desaparecimento de Rubens Paiva e de outros presos políticostraz um elemento novo do ponto de vista jurídico sobre a possibilidade de punir os agentes do Estado brasileiros sobre as violações de Direitos Humanos cometidas durante a ditadura militar brasileira (1964-1985). O promotor da Justiça Militar Otávio Bravo lembra que foi o “Supremo Tribunal Federal que equiparou o desaparecimento forçado, quando é feito por agentes do Estado, ao crime de sequestro, que permanece. Só se encerra quando aparece a pessoa ou o corpo.”

E o Pádua Fernandes postou dois posts compilando os 26 primeiros textos de sua espetacular série “Desarquivando o Brasil”:

Desarquivando o Brasil, de I a X
e
Desarquivando o Brasil, de XI a XXVI

Seguem, finalmente, os 52 posts participantes da 5ª Blogagem Coletiva #desarquivandoBR:

De demônios e desaparecidos — Roberto Numeriano

“Não há remorso nem arrependimento nos demônios humanos. Principalmente, não há medo. Eles não são assombrados por terrores noturnos, ao deitarem. Nenhum grito de dor, de misericórdia, nenhum gemido de aniquilação ressoa em sua alma. Não há, pairando sobre suas cabeças, o perigo da ira de Deus pela espada do arcanjo Miguel. Não há porque eles próprios, como os nazistas, consideram-se purificadores, aliados de Deus no extermínio de comunistas e outras “ameaças”.”

Leiteria: A solidariedade contra o Estádio — Gilson Moura Junior

“Sabemos disso por termos arquivos sobre o fato, termos fotos, termos o histórico da partida, a cobertura internacional. Sabemos sobre as vítimas da ditadura chilena pela abertura dos arquivos e pela existência de relatórios que investigam os atos do estado contra indivíduos que lutavam ao lado de um governo e leito.
Sabemos do silencioso grito de gol e do eloquente silencio torturado do Estádio Nacional e também das vítimas que no estádio foram conduzidas pelo estado ditatorial de Pinochet à morte. Sabemos disso tudo por existir no Chile arquivos abertos da ditadura. Enquanto no Brasil o silêncio impera, a busca da ocultação  dos atos dos ditadores segue ferrenha, inclusive com anuência da mídia que sustentou a ditadura militar.”

Memória de um tempo onde lutar por seu direito é um defeito que mata — Gilson Moura Junior

“O argumento milico de que “vivíamos em guerra contra milicias que buscavam instaurar uma ditadura comunista”, repetido ad infinitum por jornalistas desonestos a soldo de sei lá quem e pelo exercito de ignorantes que os segue, chega a ser patético em se tratando de qualquer estudo histórico sério que compare a dimensão do Estado Ditatorial com o das “milícias militantes” contra quem combatiam. Se aquele exército de Brancaleone tivesse o poder de derrubar o estado apoiado pela quarta frota estadunidense então a famosa incompetência militar da república de bananas estaria justificada.”

Meu coração e meu teclado estão ao lado dos jovens manifestantes — Celso Lungaretti

“É como me sinto em relação às manifestações de protesto contra antigos torturadores, articulados pela internet e levadas a cabo pelo movimento Levante Popular da Juventude em sete capitais brasileiras, nesta 2ª feira (26). 
Carregamos o bastão há décadas, era mais do que tempo de passá-lo às novas gerações. Devemos encarar sua entrada na luta como sopro renovador, coroamento dos nossos esforços e estímulo para perseverarmos: sabemos agora que o sacrifício dos resistentes dos anos 60 e 70 continuará servindo de inspiração para os que travam o bom combate e que nossos mortos continuarão sendo honrados quando nós mesmos já não o pudermos fazer.”

Sobre o Governo Dilma e a revisão da Lei de Anistia — Matheus Rodrigues Gonçalves

“É preciso lembrar também o processo aberto pelo Ministério Público Militar (MPM) contra o Major Curió pelo crime de desaparecimento forçado de militantes da Guerrilha do Araguaia (rejeitado pela Justiça Federal com base na Lei 6.683/79), e a recente movimentação da OAB, embasada na sentença da CIDH e nas ações do MPM, no sentido de cobrar do STF uma revisão do julgamento que decidiu pela constitucionalidade da Lei de Anistia. O governo brasileiro, vale frisar, mantém a sua posição. Teme-se, nos círculos governamentais, que a responsabilização de agentes do Estado responsáveis por crimes de lesa-humanidade possa “reabrir velhas feridas” e prejudicar uma democracia ainda incipiente.”

Desarquivando o Brasil XXVII: advertências de Millôr — Pádua Fernandes

“A ditadura, porém, era de direita; ele, que foi preso, com todos os editores do Pasquim (foi o jeito mais sutil que o governo federal achou para fechar o jornal que, no entanto, sobreviveu), bem pôde escrever, em O Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr, “Numa democracia todos são (presumilvemente) iguais perante a lei. Numa ditadura todos são iguais perante a polícia”.”

A construção do herói — Deborah Petri

“Anos depois, conhecer o antigo “camarada”.
– Claro que me lembro do seu tio. Éramos amigos.
E respirar muito fundo antes de tomar coragem para perguntar, garganta apertada:
– … ele falou?
Olho no olho, ansiedade.
– Não, mocinha, ele nunca falou. Por isso foi tão torturado. Mas nunca entregou ninguém. Seu tio era um forte.
A última peça que faltava afinal se encaixando. O descanso do herói em minha memória, inteiro e vitorioso. E o choro trancafiado durante tantos anos finalmente vindo à tona.
Orgulho.”

Luta amada —  Daniel Souza Luz

“Todos sabem quem foi, às vezes o responsável aparece no noticiário, com a cara de quem dormiu gostoso ao roubar as horas de sono alheias. Hoje foi a vez da mãe também se ir, sem nunca saber o que aconteceu com aquele filho idealista do qual ela se orgulhava, mesmo sem compreender o que exatamente todos aqueles discursos inflamados diziam. Até o último dia pressionou para que a verdade viesse à tona. O retrato será enterrado com ela.”

Em Memórias – Diálogo — Tadeu Francisco

“Felizmente a câmera foi parar em boas mãos, em algum porão secreto que os meus ainda preservaram. Confiaram em um dos nossos para uma boa revelação das fotos. “Susto e surpresa…” As fotos registraram meu corpo morto e alguns militares fardados e eretos. Porém, nas imagens, os milicos não tinham rostos, somente os quepes, que flutuavam sobre seus pescoços. Não foi possível identificar ninguém. Atribuíram o feito a um feitiço. Mas bem sei que não é feitiço algum. Sei quem é cada pessoa que ali estava. Pena que sou só memória esgotada.”

O golpe militar de 1964 — João Capiberibe

“Finalmente em 31 de março, quase dez anos após a 1ª tentativa de golpe militar, os militares chegam ao poder e decidem não reparti-lo com os golpistas civis da UDN.
Nesses 10 anos conspiraram contra os avanços conquistados por Vargas, Juscelino e Jango as forças retrogradas da imprensa, do empresariado e da Igreja Católica em sintonia com militares e agentes do governo dos EUA.
A partir daí, o país amargou 21 anos de tirania.
Contra a democracia, rasgaram a Constituição, instituíram a legislação de exceção com o objetivo de calar os que não aceitavam o arbítrio da ditadura militar.
Assassinatos, tortura, prisões ilegais, exílio e outras formas de opressão são a marca registrada da ditadura.
Por isso, o dia 31 de março é um dia de luto.”

Desarquivando o Brasil: O luto numa terra de cadáveres insepultos — Idelber Avelar

“Muito mais que qualquer outro país que eu conheça, o Brasil é uma terra de cadáveres insepultos. Trinta e dois anos se passaram desde a volta dos exilados e a promulgação da Lei da Anistia. Desde então, os governos militar, peemedebista, collorido, tucano e petistas se sucederam sem que se realizasse um única ação estatal de julgamento e punição dos responsáveis pelas torturas, execuções, violações acontecidas durante a ditadura militar. O nosso trabalho de luto é incompleto e precário, pois falta-lhe o essencial: o reconhecimento institucional, na pólis, do evento acontecido, e a responsabilização de seus agentes.”

Covardes gavetas — Gilson Moura Junior

“Minha alma é fogo é sol
E encerra a espada que abre ao sol
Ou a Guerra
Homens fantasmas encerram a verdade em parcas gavetas
Homens nos matam inteiros entre suas covardes  gavetas.”

Memórias de uma rua — Mazeh Moreira

“A rua fica em polvorosa. O pai, naquela casa, era um homem estudioso, fino no trato com as pessoas, mas tinha um jeito diferente de encarar a divisão de bens, na sociedade. Ele sempre dizia “os direitos são iguais, o justo é que todos tenham um teto para morar e comida no prato”. As pessoas do bairro eram muito simples, também queriam aquilo, mas não sabiam como encontrar, além do quê uma certa inércia, provocada pela falta, os possuía. E aquele homem representava uma força que parecia de todos.  Por isso, o sentimento de desprezo por aqueles homens armados, em caminhões-tanque, com metralhadoras, era franco. O homem era tão bom com todos!”

Nação estuprada — Eliana Klas

Torturadores não podem andar sorrindo livremente enquanto famílias inteiras foram despedaçadas. Isto não pode se repetir.
A luta para que o passado não caia no esquecimento não pode ser somente dos familiares e das vitimas.
Hoje nossa voz deve ser a voz de todo um povo. 
É urgente a criação de um mecanismo, uma norma, que não permita que o Estado anistie seus próprios agentes.
Permitir o esquecimento dos crimes de seqüestro, tortura e assassinatos nos anos da Ditadura é o mesmo que permitir que o Estado estupre toda nossa nação, novamente, sob a sombra da lei.

De pé no chão também se aprende a ler — Tiago de Azevedo Aguiar

“O maior de seus feitos foi concretizar o pensamento de Paulo Freire. Onde havia analfabetos, uma frente ampla, municiada com a pedagogia do oprimido. Em cada rua de cada bairro, vila ou favela, uma competição foi iniciada: a erradicação do analfabetismo. Faixas davam conta de quantos analfabetos ainda restavam em cada viela, bibliotecas populares errantes, móveis, matavam a sede. Todas as crianças tinham escola, refeição, recreio. Os adultos recebiam uma educação de acordo com o cotidiano, com instrumentos do dia a dia sendo utilizados como exemplo, com a compreensão protagonista em desfavor da memorização.
No dia 1º de abril de 1964, transformou o edifício sede do governo em quartel general da legalidade e da resistência. Isolado pelo governo do RN e do Brasil, foi traído, preso e levado para presídios de Natal, Recife e Fernando de Noronha. Com a brutal tortura sofrida e vinte e cinco quilos perdidos, a notícia de sua morte criou um clima de revolta popular na cidade de Natal, razão que forçou a justiça a lhe conceder um habeas corpus.”

Desarquivando a tortura: a luta de um passado ainda presente — Victor Coelho

Cada “milico de pijama” (na verdade, trajados com elegantes ternos, como mandava o figurino) que entrava no edifício teve sua paz de “salvador da pátria” perturbada por gritos de “torturador”, “assassino”, “estuprador” e por breves canções que revelavam que certas verdades sobre o passado (do país e desses senhores) não conseguiu ser apagada. Precisavam de uma breve escolta da PM que se posicionava em frente ao edifício para conseguirem entrar, cercados que ficavam pelos manifestantes. Palavras de ordem pediam punição, exigiam justiça. Bandeiras de partidos e movimentos de esquerda, cartazes com os rostos de desaparecidos, um ativista distribuía cópias em folha A4 cada uma com um rosto e nome. Eu fiquei com o pequeno cartaz com a memória impressa de Ranúsia Alves Rodrigues. Uma ativista de cerca de vinte e poucos anos deu um tom de maior dramatização ao marcar cada um desses rostos impressos com tinha esprei vermelha, no alto da cabeça. Tinta vermelha que havia sido jogada na calçada em frente ao Clube Militar como forma de lembrar o sangue derramado das vítimas da ditadura.

Desarquivando o Brasil XXVIII: Anistia, a Rebelião dos Marinheiros e Eliana Calmon — Pádua Fernandes

“Ao contrário da fantasia anistórica sustentada pela posição predominante do Supremo Tribunal Federal no julgamento da lei de anistia (a ADPF 153), essa lei não foi ampla, geral e irrestrita, deixando de fora, entre vários, aqueles militares, simplesmente porque não foram punidos com base em ato institucional.
Como se sabe, a lei de anistia acabou por sofrer interpretação extensiva na Justiça Militar para abranger os “crimes de sangue”. Isso não ajudou naquele momento os marinheiros; parte deles conseguiu ser anistiada judicialmente, outros não tiveram o mesmo sucesso.
Ainda não li a sentença de 1981 de Eliana Calmon, que não é, por sinal, mencionada na dissertação de Anderson da Silva Almeida. Na reportagem de Paolo Marconi, lemos: “Como técnica do direito, como cidadã brasileira, como espectadora política, concordo integralmente com os litigantes quando afirmam ter sido aparentemente restrita, parcial e pouco ampla a anistia.””

Nada a comemorar — Luiza Sansão

“Anistia para os dois lados”? Os setores conservadores da sociedade se posicionaram e vêm se posicionando contra a abertura dos arquivos da Ditadura. Obviamente, quem defendeu o autoritarismo e a tortura não deseja ser punido nem ter punidos seus representantes. “Os setores conservadores querem apagar esse período, mesmo porque eles se envergonham do mesmo. Eu não digo todos os conservadores, porque alguns até tiveram prazer de torturar, eram sádicos, mas na verdade eles querem esconder esse passado”, disse Cintra [entrevista realizada em maio de 2011]. Muitos dos que se opõem à abertura dos arquivos apresentam o discurso de que “a Anistia foi pros dois lados” (ditadores e presos políticos). “Eu não sei que Anistia foi para os dois lados. Eu e os companheiros fomos presos, punidos por crimes que não cometemos, fomos torturados, perdemos emprego, tivemos muitas vezes que sair da cidade onde morávamos. E eu não vi nenhum torturador ser punido por nada. Então que Anistia é essa, que é esquecimento? Esquecer os criminosos e deixar de lado quem já sofreu?”, questiona o professor. “Não entendo como, por exemplo, pode se falar em perdão para crime de tortura, se o Brasil assinou o protocolo da ONU (Organização das Nações Unidas) que diz que crimes de tortura são imprescritíveis”, completou.”

Do Calabouço ao Alemão, Edson Luís segue presente –Matheus Rodrigues Gonçalves

“Investe-se, cada vez mais em todo o país, na militarização das forças policiais e em políticas de enfrentamento que, no mais das vezes, acaba por servir tão-somente como instrumento de extermínio da população pobre. O Estado, por meio das forças policiais (e em alguns casos, como no Complexo do Alemão, das próprias Forças Armadas) ocupa com fuzis diversas comunidades, relegando a um segundo plano a necessidade de responder a necessidades humanas básicas, tais como o saneamento básico, a educação, a saúde, a cultura e o lazer. São constantes os casos de prisões arbitrárias, agressões e até mesmo torturas e assassinatos pelos agentes do Estado contra a população local (num revival  macabro dos tempos da ditadura de 64).  É a chamada criminalização da pobreza.”

Os Penduricalhos da Mentira — Chico de Assis

“De todos os argumentos que ora estão sendo usados para inocentar torturadores – que torturaram, estupraram, assassinaram e fizeram desaparecer centenas de brasileiros, continuando até hoje absolutamente impunes por todos esses crimes -, este é o mais falacioso, por conduzir uma estupenda mentira histórica. A anistia sancionada por Figueiredo foi parcial, mesquinha e restrita. Não houve pacto. Houve imposição. De uma pequena maioria, num Congresso ainda emasculado pela legislação discricionária, associada à truculência habitual dos trogloditas do regime. Aos que estavam do lado dos perseguidos restou apenas se curvar à correlação de forças e aproveitar os elementos de avanço que a medida de qualquer forma representava (porque ninguém seria louco para se recusar a sair da prisão ou a voltar do exílio).” 

O ano em que meus pais saíram de férias — Niara de Oliveira

Os pais de Mauro foram obrigados a fugir, por serem militantes de esquerda e perseguidos pela ditadura, e a deixá-lo com o avô paterno (Paulo Autran) que mora no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Porém o avô enfrenta problemas, e Mauro tem que ficar com Shlomo (Germano Haiut), um velho judeu solitário vizinho de seu avô. Enquanto aguarda um telefonema, Mauro precisa lidar com sua nova realidade, que tem momentos de tristeza pela opressão da ausência dos pais, e também momentos de alegria, ao acompanhar o desempenho da seleção brasileira na Copa do Mundo.
Este é o segundo filme dirigido por Cao Hamburger. O anterior foi Castelo Rá-tim-bum (1999). Vencedor de muitos prêmios nos diversos festivais de cinema no Brasil e na América Latina, também foi escolhido como o representante brasileiro para disputar uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2006.

Batismo de Sangue — Niara de Oliveira

Baseado no livro homônimo de Frei Betto (pelo qual recebeu o Jabuti, principal prêmio da literatura brasileira em 1985) sobre suas experiências durante a ditadura civil-militar brasileira. Quando estava num convento de frades, no final dos anos 60 em São Paulo, envolveu-se na resistência contra o regime e é esta a história contada no filme, que foca quatro freis: Betto (Daniel de Oliveira), Tito (Caio Blat), Fernando (Léo Quintão) e Ivo (Odilon Esteves). Movidos pelos ideais cristãos de apoiar o povo cerceado em sua liberdade de expressão e manifestação, acabam se envolvendo e apoidando a Ação Libertadora Nacional, comandada por Carlos Marighella (Marku Ribas). As prisões e eventuais torturas de Tito, Fernando e Ivo levam a história a consequências drásticas para todos os personagens.

O que fizeram  com Vandré? — Marcelo Arruda

“Geraldo Vandré passou dois meses escondido até deixar o país de forma clandestina, em fevereiro de 1969. Morou em vários países, passando mais tempo no Chile e na França.
Quando ele retorna começam os mistérios.
Ele decide se afastar dos meio artístico. 
Informações desencontradas.
Uma Falsa entrevista no Jornal Nacional.
Aonde ele diz que foi usado e preocupado em fazer dali em diante apenas canções de amor e paz.”
 

Wando de luta — Marcelo Arruda

“Quando se fala de protesto político na música dos anos 70, em geral pensamos na MPB “autorizada” e “oficial”, com seus cânones com uma certa dose de assepsia social. Mas é difícil pensar uma canção que teve o impacto nas formas de organização das comunidades urbanas mais pobres, como teve “Presidente da Favela”, de Wando.
Com o bloqueio dos espaços públicos tradicionais da política — parlamento, sindicatos, partidos – a Organização visando a Participação Popular tinha que encontrar outros caminhos na época da Ditadura. Um deles foi os movimentos de organizações de moradores e comunidades carentes, com influência das Comunidades Eclesiais de Base.
Em 1977, Wando conheceu, em uma das suas participações no programa “Almoço com as Estrelas” de Aírton Rodrigues, o líder comunitário Dalvino de Freitas. E em homenagem a ele escreveu sobre a ausência de um presidente como aquele – da favela – no país.”
 

Desarquivando charges do @Angeli_ — Giambatista Brito

Desarquivando charges de @NaniHumor — Giambatista Brito

Desarquivando charges: @CarlosLatuff desmonta tese dos “dois lados” — Giambatista Brito

Em honra ao meu pai — Daniel Dantas Lemos

“Meu pai tinha coragem. Teve coragem de enfrentar a ditadura como poucos tiveram. Enfrentou de peito aberto e correndo toda espécie de risco que minha geração sequer é capaz de imaginar. Ele fez a sua luta para que eu pudesse fazer a minha. Ele entregou sua vida para que a minha filha – sua neta – pudesse viver num país em que se progride e se avança de forma real no rumo da emancipação de todos os sujeitos subalternos – mesmo com os recuos dolorosos do governo Dilma.
Meu pai era ousado para enfrentar 44 dias de intensas torturas. Para compor paródias musicais nas celas do DOI-CODI – mexendo com o toque de campanhia que avisava que algum companheiro, talvez mesmo ele, iria ser violentamente interrogado em instantes. Enfrentou inclusive o delegado Sérgio Paranhos Fleury em uma dessas sessões.”

Desarquivando o Brasil XXIX: Desaparecidos: os homens e os direitos — Pádua Fernandes

A reivindicação de direitos humanos, nesses documentos, é geralmente atribuída a comunistas. Creio que, em um país em geral avesso a esses direitos, essa estratégia de estigmatizar os comunistas pudesse, realmente, angariar simpatia a curto prazo. Não só os desaparecidos, mas também esta categoria jurídica, os direitos humanos, incluía-se entre os “extraviados” do regime.
No entanto, a um prazo mais longo, a estratégia de deixar com a esquerda a bandeira dos direitos humanos não fez bem para a direita, em termos de batalha ideológica: ela poderia falar em nome da dignidade fazendo um dueto com o pau-de-arara? O discurso não seria sustentável, resultaria em uma gangrena ideológica. 
De qualquer forma, a dose de hipocrisia necessária para que pudesse empunhar aquela bandeira logo tornaria o pendão pesado demais para ser carregado. 
Para a esquerda, isso foi benéfico, pois levou à (re)descoberta da importância dos direitos fundamentais e a sínteses como a de Carlos Nelson Coutinho sobre socialismo e democracia.

Cabra-Cega — Niara de Oliveira

“Existem muitas histórias sobre a ditadura envolvendo nomes importantes e conhecidos, e todas poderiam virar cinema. Algumas já viraram. Esse filme conta a história de pessoas comuns que militaram na resistência contra a ditadura, que se arriscaram na clandestinidade ou mantendo vidas duplas para tentar salvar ou tirar do país os ditos militantes procurados como “terroristas” pelo governo militar.
Thiago (Leonardo Medeiros) e Rosa (Débora Duboc) são dois jovens militantes da luta armada, que sonham com a revolução no Brasil, mas de pontos diferentes desse cenário político. Thiago é o comandante de uma célula dentro de uma organização de esquerda da luta armada, que está no momento debilitada e estuda um retorno à luta política. Ele foi ferido numa emboscada da polícia e precisa se esconder na casa de Pedro (Michel Bercovitch), um arquiteto simpatizante da causa. Rosa é escalada para cuidar dele é seu único contato com o mundo.”

Escracho e Abertura dos Arquivos: É hora da VERDADE! — Raphael Tsavkko Garcia

São criminosos da pior espécie que cometeram crimes contra a humanidade. Mantiveram o país em um cativeiro por mais de uma década e, hoje, se escondem por detrás da ignorância sobre nossa história imposta pelo Estado e mantida pelo atual governo, à revelia de decisões internacionais que desrespeitamos insistentemente.
Já passou da hora não só de uma Comissão da Verdade de verdade -e não o arremedo dilmista que não pune nada, nem ninguém -, da abertura completa e irrestrita dos arquivos da Ditadura e, finalmente, da PUNIÇÃO de todos que tenham cometido crimes contra o povo brasileiro e que tenham dado sustentação ao regime ditatorial, sejam eles militares ou civis.
Nós temos o direito de não sermos forçados a viver ao lado de torturadores que escaparam impunes, temos o direito de conhecer nosso passado em sua totalidade e, desta forma, ter munição para lutar por um futuro diferente.

Salvo-conduto — Eduardo Sterzi e Veronica Stigger

“(…)
mas ninguém lhe pede
que raspe o nariz
para o retrato
da carteira
de identidade
nem lhe pede
que raspe o nariz
se quiser voltar
um dia
ao seu país”

Justiça — Suzana Dornelles e Carlos Latuff

Abro uma porta antiga e vejo pessoas conversando.
Alguns eu reconheço de fotos nos jornais e revistas, outros não.
Alguns estão molhados, outros têm terra em suas vestes…
Tento me aproximar para ouvir o que falam, é quase inaudível (parecem sufocados).
Mas uma palavra escuto com clareza, pois todos falam juntos:
“JUSTIÇA”

Contra a ditadura militar: o Cordão da Mentira e Armando Freitas Filho segundo Renan Nuernberger — Pádua Fernandes

O esquecimento dessa violência é, justamente, um dos fatores para a truculência de hoje. Para lembrar de ambas, além da leitura do livro, sugiro, para quem estiver em São Paulo, a participação no Cordão da Mentira. Escolher, para a caminhada, o DOPS como ponto final deve significar a firme vontade de que ele não seja o ponto final, ou recorrente, da história do Brasil.”

Desarquivando o Brasil XXX: Comissão da Inverdade, Cordão da Mentira e os juristas — Pádua Fernandes

“O artigo é muito rico em questões, que não desdobrarei aqui. Os autores afirmam que “A Lei da Anistia não foi um ato unilateral e oportunista dos protagonistas da ditadura.” – um absurdo histórico; mesmo na época, os políticos do MDB denunciaram que o projeto governista foi imposto ao Congresso. “Tampouco foi uma autoanistia.” – Deisy Ventura atacou esse equivocado raciocínio desta forma: Se eu te convido a comer, eu também não comi? Se te anistiei também, não me anistiei? Se os dois autores, aliás, tirassem consequências do que escreveram, teriam que sustentar que os agentes da repressão política NÃO estão anistiados, já que a lei não teria concedido autoanistia ao regime…
O artigo considera que os estupros cometidos contra as prisioneiras eram crimes políticos e estão anistiados: “Ainda que os torturadores-estupradores não tivessem uma clara percepção do sentido político de seus atos, era isso que justificava a prática sistemática de estupros.” É curioso que uma autora assine esta explicação sobre a “justificativa” da violência de gênero.”

O que significa festejar o golpe? — Murilo Duarte Costa Corrêa

“Não é o estado atual da democracia brasileira que precisa defender-se dos espectros da ditadura: eles a ocupam de dentro a fora e fazem a democracia retornar sob a forma da violência constituinte das resistências que passaram a ganhar as ruas (confira-se, por exemplo: o Levante Popular da Juventudeos esculachos dados em torturadoresos protestos dos manifestantes contra a comemoração do Golpe de 64 pelos militares da reserva no Clube Militar do Rio [em um registro do chargista Latuff, mas também em uma cobertura avacalhada do Grupo O Globo]).
Comemorar o Golpe de Estado como uma revolução democrática significa que os devires da democracia – suas condições materiais, mais que um seu conceito –, estão novamente em jogo no terreno da política. Em nosso contexto, o bloqueio dos arquivos coincide com o bloqueio dos afetos, que pouco a pouco são liberados nas cidades e no campo e voltam a enxamear surdamente, voltam a circular e a restituir o espaço público, decadente desde o fim dos anos 80.”

Para jamais esquecer as atrocidades da ditadura militar — Chico Bicudo

“Aviso aos militares golpistas e às viúvas da ditadura: não esqueceremos! Dom Paulo Evaristo Arns, no obrigatório Brasil: Nunca Mais, destaca que “não há ninguém na Terra que consiga descrever a dor de quem viu um ente querido desaparecer atrás das grades da cadeia, sem mesmo poder adivinhar o que lhe aconteceu. O ‘desaparecido’ transforma-se numa sombra que, ao escurecer-se, vai encobrindo a última luminosidade da existência terrena”.
E, como bem lembra novamente o manifesto do “Cordão da Mentira”, “se a farsa continua, continuaremos a exigir o direito à justiça e à verdade”. Jamais esqueceremos.”

Umas histórias — Renata Lins

“São umas histórias de gente. Tem as histórias da gente que foi pra luta armada. E tem também as histórias de gente que queria que todo mundo pudesse ler e entender, pra brigar por seus direitos. Lendo, entendendo, discutindo, conversando. De gente que sonhava com um Brasil sem coronéis, onde a tanta terra que há fosse partilhada e compartilhada. Um Brasil em que todo mundo pudesse se sentir cidadão. Em que todo mundo pudesse fazer parte. Em que as diferenças se tornassem menores. Tão menores.”

Ele não era Chico Buarque — Marcelo Arruda

“Havia intencionalidade de enfrentamento neste ato. Mas por algum motivo, as canções proibidas de Luiz Ayrão não lhe traziam o mesmo prestígio de Chico Buarque, por exemplo. Segundo Paulo César de Araújo, “os críticos, pesquisadores, musicólogos, enfim, os formadores de opinião, em sua maioria, pertencem a um segmento de classe média e formação universitária. O tipo de público que faz seu julgamento através da defesa do “autêntico”. (…). O que não for tradicional ou moderno não existe. Devido ao divórcio que existe entre a elite e o povo no Brasil, os ditos “cafonas” foram atirados no limbo da história.” Ironicamente temos aí um encontro entre direita e esquerda no silenciamento de expressões populares, o que ajudava, e muito, o projeto ideológico da Ditadura Civil-Militar de dominação pela supressão de outras narrativas que não as canonizadas.”

O espelho do passado e a memória em conflito — Fabiano Camilo

“Investigar o passado, precisar acontecimentos, enterrar os mortos são tarefas que independem dos (imprescindíveis) processos de julgamento dos responsáveis pelos crimes de terrorismo estatal, são tarefas que deveriam ter sido realizadas há muito tempo. Vergonhoso não é somente o passado, mas também este presente pusilânime. De tanto tentarmos esquecer, de tanto mentirmos para nós mesmos, corremos o risco de começarmos a acreditar nas falsas narrativas que construímos para não termos de suportar o peso opressivo do passado. A memória mutilada: sem lembranças, sem responsabilidades.”

Desarquivando charges de @CarlosLatuff — Giambatista Brito

Pelo fim do primeiro de abril de 1964. Pelo direito à verdade — Giambatista Brito

“Mas 2012 já foi diferente. Mais uma vez o governo nada fez. Os arquivos continuam confidenciais. Os mentirosos celebram e seguem livres. Mas a verdade meio que se fez ouvir pelo grito rouco daqueles que ousaram estar presente àquela festa de 29/03 e que apesar dos choques, cacetetes e bombas, puderam gritar “TORTURADOR” contra cada um daqueles bandidos. Os meus sinceros parabéns aos que organizaram o 29/03/2012. Que ele possa ser o início do fim do 01/04/1964.”

5ª Blogagem Coletiva #desarquivandoBR — Danieli Bispo Guadalupe

“Como isto pode acontecer no governo de uma ex-guerrilheira, de uma mulher que foi torturada e sofreu abusos? Compreendo que para governar é preciso ter jogo de cintura, realizar coligações, ceder alguns pontos. Mas atualmente o que vejo não é isto, mas uma completa mudança, parece até que nada das ideologias do passado restou. Chego a pensar que a verdadeira Dilma, a que tinha sonhos, ideologia, a que sofreu tortura sem entregar companheiros ficou perdida em algum lugar daqueles porões. Daqueles porões saiu uma Dilma modificada.  E infelizmente insensível aos apelos de companheiros do passado.”

Dos tempos sombrios de ontem que perduram hoje — Matheus Rodrigues Gonçalves

“Mesmo com todos esses crimes de lesa-humanidade perpetrados com verbas públicas por agentes do Estado e dos casos de corrupção que comprovam que a ditadura não era honesta há, ainda hoje, quarenta e oito anos depois, militares de várias idades que celebram a “Revolução Democrática de 1964”. E, nesse espírito provocador, executam atos de comemoração do Golpe, mesmo após a proibição da Presidência da República. Dentre os principais fatores que permitem desse e de outros escárnios está a não responsabilização dos crimes praticados pelo Estado entre 1964 e 1985. a mensagem é a mesma, tanto para os agentes públicos que hoje perpetram as mesmas barbaridades do passado como para os militares que celebram o Golpe: “Vá em frente, continue fazendo. Pode torturar, matar, desaparecer com os corpos e comemorar depois. Nada lhe acontecerá”. Levantemo-nos contra isso. Nenhum passo atrás na luta pela Memória, pela Verdade e pela Justiça!”

No dia da mentira, anistiaram a verdade… — Ricardo Prestes Pazzello

“Por tudo isso e muito mais que temos de nos dedicar a compreender nós mesmos a partir de nossa história exilada e aprisionada. Permitir a volta do exílio de nossa história depende, em muito, da abertura dos arquivos sobre o período e a séria investigação sobre as responsabilidades deles decorrentes. Desagrilhoar esta mesma história vai para além disso, imprescindindo da mudança do modo de produzir a nossa vida em sociedade, ou seja, imprescindindo de nossa libertação.
Infelizmente, exílio e prisão ainda marcam significativamente nossa história. Por isso é que lembramos esse “calendário perplexo”, do hoje que é ontem e do ontem que é hoje.
No dia da mentira, anistiaram a verdade… anistiaram a verdade de ser verdadeira, tornando a realidade um simulacro. Mas, ainda assim, tudo isso se passou conosco…”

#DesarquivandoBR — Renata Martins Domingos

“Pensando em escrever um texto pra contribuir com o debate, lembrei da nossa experiência como estudantes de Direito da USP, quando, na direção do Centro Acadêmico “XI de Agôsto”, Gestão Rasgando o Verbo, organizamos a “Semana 64 Nunca Mais” juntamente com a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos. Esta semana de debates foi um dos primeiros atos políticos do qual participei e ajudei a organizar em prol do atual movimentando #DesarquivandoBR.
Seguem alguns registros da nossa atuação à época, de divulgação do evento e de discussão do tema, por meio de nossos veículos de comunicação internos: Boletim do XI e Jornal “É Direito?”
Recordar é viver. Recordar é construir a nossa história.”

A busca por Verdade e Justiça é tão perene quanto The Wall — Marcelo Oliveira

“Assim como as cinzas de Nuet levaram 28 anos para serem entregues à família, há ainda milhares de outras histórias que requerem esclarecimentos. Derrubar o muro da vergonha que esconde essas informações e que protege os carniceiros que a mando de um regime mataram, torturaram, oprimiram e censuraram músicas e filmes (!) é essencial para que o Brasil saiba que país é. Mais uma vez a mensagem da música une e traz a inquietação necessária, unindo a busca por Verdade e Justiça à eternidade de The Wall.”

Luta, Coragem e Memória: Substantivos Femininos — Niara de Oliveira

“Se hoje nós podemos biscatear livremente por aí — ou nem tão livremente assim, mas vamos enfrentando as adversidades com alegria — devemos isso às mulheres que subverteram o papel que lhes era permitido e foram além, levantaram bandeiras em nome da liberdade. Fica aqui o pequeno registro do Biscate Social Club sobre a luta dessas mulheres. E para que essas histórias sejam conhecidas precisamos desarquivar o Brasil e promover o encontro dessa nação com a verdade e sua memória. Precisamos contar oficialmente, e com orgulho, a história da resistência ao horror oficializado pelo Estado. Para que se conheça, para que não esqueça, para que nunca mais aconteça!”

O novo cálice – Negar a memória é negar os Direitos Humanos — Thaís Campolina

“Ao se falar do direito à memória e a verdade é necessário falar sobre o conceito de “Justiça de Transição”, essa expressão significa a busca pela efetivação da justiça, ou seja, seria a responsabilização dos agentes estatais responsáveis pelas torturas, estupros e abusos de poder de seus crimes e também o resgate da memória de suas vítimas, ou seja, o reconhecimento e o resgate da história de cada uma. Essa busca pela justiça acontece no processo de redemocratização de um Estado que passou por violações dos direitos de seus cidadãos.”

“Como se fora brincadeira de roda” — Fernando Amaral

“E fico cá a me perguntar por quais raios o Brasil insiste em negar sua memória e a macular, por outro lado, a memória de tantos brasileiros que ousaram cantarolar vagabundices pelos cantos deste país. Fico cá a me perguntar se o que temos é covardia de enfrentar militares de pijamas e polainas ou é medo de descobrir que o aparelho repressor do Estado continua o mesmo, com os mesmos tijolos. Será que temos receio de descobrir os cúmplices civis que não só silenciaram como se locupletaram e perceber que estes andam por aí, que jantam sem culpa e que brincam de democracia nos quintais do poder? Será que receamos conhecer os mecanismos de financiamento da repressão e de sustentação ao poder político e como num “plim-plim” perceber que as coisas continuam com a mesmíssima fundação? Será que nossa vergonha é tamanha que não teremos a dignidade de pedir desculpas? Será que temos o pavor de descobrir corpos de desaparecidos políticos em covas clandestinas e encontrar nestas covas outros clandestinos pobres, negros, índios, crianças de rua, mulheres? E perceber, aturdidos, que estas covas continuam a serem alimentadas, cotidianamente?”

Eu Queria  Ser Odair José… — Marcelo Arruda

O básico de qualquer ditadura que se preze é o controle da vida. A repressão persegue qualquer idéia contrária no campo cultural de maneira ampla. Podemos ver isso claro quando vemos a crítica comportamental que alguns Saudosos de 64 fazem, de forma bem ativa…
A obra de Odair José foi, nos anos 70, um dos marcos de ruptura do pudor brasileiro na música. Pegou um pouco da experiência de vida dele: Cantou muito em boates na região do cais do Rio de Janeiro. E, como um repórter, muito do que via da realidade do Porto ele colocou na música, convidando o ouvinte a reflexão e questionamento: exclusão social, alienação, adultério, homossexualidade, prostituição, anticoncepcionais, consumo de drogas e racismo. Sem metáforas. De forma adulta. Falava para um público, digamos, classe C, majoritariamente católico, conservador, apegado aos tabus, aos valores sociais vigentes.

A ditadura que ainda não superamos — Niara de Oliveira

Essa luta é minha e é de todas as pessoas que conseguem minimamente perceber que estamos todos em risco. Quanto mais acharmos (coletivamente) que nada temos a ver com a dor do outro mais nos colocamos em risco. Enquanto permanecermos inertes diante da violação de direitos humanos, o Estado e seus órgãos repressores vão dia a dia consolidando a tortura, o assassinato e o desaparecimento forçado como prática cotidiana nesse nosso arremedo de democracia, sempre em benefício da mesma classe já favorecida durante a ditadura — e se os empresários financiaram a tortura, tirania e os desmandos dos militares e civis, é porque lucraram muito com isso. Se antes eram apenas (apenas?) os comunistas e subversivos os alvos do Estado, hoje são os negros, pobres e — como podemos observar nas imagens atuais, continuam sendo — alvo os que ousam discordar e protestar.

 

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