A geração do próximo passo

Por Diego Soca[1]

“O não saber sobre os mortos do passado instaura na memória um lugar de indeterminação cuja transposição atual se encontra nesses espaços indeterminados de exceção, situados no seio do próprio corpo social – e cuja existência nem sequer é percebida. Podemos citar Guantánamo, mas também lugares ditos mais ‘normais’ como os campos de refugiados, as salas de espera para os clandestinos nos aeroportos e, quem sabe, as assim chamadas periferias das grandes cidades”.[2]

tumblr_m24xxo2D0H1rsjjd3o1_1280Algumas datas importantes da nossa vida sempre nos incentivam a reflexões: aniversário de namoro, casamento, formatura, falecimento, etc. É natural questionarmos como estão as coisas ao nosso redor, fazer um balanço, planos para o futuro, e principalmente, lembrarmos um pouco do nosso passado. Dessa forma conseguimos visualizar com mais clareza nosso cotidiano, comparar, e a partir daí direcionar novos caminhos a serem percorridos. Fazemos isso pelo menos uma vez ao ano, no réveillon. No entanto, existem datas que servem para o mesmo propósito a uma sociedade inteira, e estamos nos aproximando de duas: o aniversário de 45 anos do Ato Institucional Nº 5, de 13 de dezembro de 1968 – data que motiva estas linhas; e o aniversário de 50 anos do golpe civil-militar de 31 de março de 1964, que inaugurou um dos períodos mais traumáticos do nosso passado recente.

O ano de 2013 foi um ano intenso, certamente. Como professor de história, em algumas ocasiões, confesso que pude sentir um pouco na pele o que é estar presenciando momentos históricos. Mas desde o mês de junho venho tentando refletir e entender que geração é essa, a minha, que se viu nas ruas pela primeira vez, mas que parece que nunca tinha se visto antes. Acho que para tentar entender essa geração, pelo menos pelo viés histórico, é preciso um afastamento temporal bem maior, e não vou me atrever a isso nesse texto. No entanto, creio que seja importante falar de pelo menos um dever que essa geração pós-ditadura tem para consigo mesma e para o seu passado: o dever de dar o próximo passo.

Esse “próximo passo” consiste em elaborar um luto que está em aberto, realizar um “esquecimento libertador” de um trauma social que ainda se faz presente, e reinventar uma nova forma de ser. Não quero aqui ficar apontando as heranças que o nosso passado traumático nos deixou – deixo isso para outros muito mais capacitados que eu. Quero focar um pouquinho no porvir, que penso ser esse “próximo passo”, tão esperado por quem viveu o período traumático da ditadura. Creio que cada sobrevivente ou familiar elaborou, de alguma forma, uma forma de se reinventar e tocar adiante, mas a “memória impedida” desse período (pedindo emprestado esse conceito do historiador Paul Ricoer) conservou um subterrâneo de lembranças que durante muitos anos não pôde (e ainda não pode) vir à tona. Conviver com isso deve ser muito doloroso, e admiro as pessoas que apesar dessa dor, continuam firmes na luta para acabar de uma vez por todas com esses impedimentos que negam o direito à verdade, à memória e à justiça.

A dor destas pessoas, em realidade, é uma dor de toda a nossa sociedade. Creio que o que se passa com cada sobrevivente ou familiar se reflete na história recente do nosso país. Um país que através de um esquecimento institucional – a malfadada Lei da Anistia de 1979 – não consegue se enxergar no espelho, se reconhecer, elaborar seus lutos, superar suas dores e dar o próximo passo. E foi essa geração aparentemente sem passado que se viu nas ruas em junho (e aqui me custa um pouco escrever essas linhas, sendo um professor de história que tenta a cada dia mostrar pra um punhado de crianças do ensino fundamental de uma escola pública que sim, elas têm passado, têm história).

Alguns poucos perguntaram em junho pelo Amarildo. E digo, quase que sem medo de errar, que o Amarildo é o reflexo desse passado soterrado que a sociedade brasileira não consegue superar. Um passado desaparecido, assim como os mais de 300 daqueles tempos, e os incontáveis do tempo presente. Um passado o qual não podemos sepultar, exorcizar, transformar em história e abrir espaço para o presente, citando livremente outro historiador, Michel de Certeau. Creio que se esse esforço não foi feito pela geração que nos antecede, apesar da tentativa de poucos e da recusa confortável de muitos, ele deve ser realizado por esta, aparentemente tão dinâmica e segura de si, mas que não se conhece nem se reconhece. Não se reconhece porque em grande medida ainda convive com o trauma, porque ainda convive com Amarildos.

Quando voltamos daquelas férias demoradas na praia, depois de deixar nossa casa tanto tempo fechada, abrimos todas as janelas para que o sol entre e o cheiro de mofo saia. Tiramos o pó e arrumamos tudo para volta à rotina. Esse me parece o próximo passo: abrir as gavetas, ouvir as histórias, conhecer a verdade, arrumar as peças do passado em seu lugar (lembrando aqui que lugar de quem comete crime de lesa humanidade é no banco dos réus), e voltar à rotina. Rotina que infelizmente essa geração ainda não conhece como tal, uma rotina em que não convivamos mais com os traumas herdados do passado, em que possamos enterrar nossos mortos, elaborar nossas dores, escrever nossa história e dar espaço para o porvir. Esse é o ciclo da vida, e gostaria muito de ver minha geração fazer isso.


[1] Mestrando em História da UFRGS e professor. Twitter: @diegobaderneiro.
[2] Jeanne Marie Gagnebin. O preço de uma reconciliação extorquida. In: Teles e Safatle (orgs.). O que resta da ditadura. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 186.


Este post faz parte da VIII blogagem coletiva #desarquivandoBR.

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