Um outro verão

Por Tadeu Rodrigues, para a VIII Blogagem Coletiva #desarquivandoBR

— Fecharam o congresso! – grito rouco.

— Nada, são apenas as migalhas de algo maior – ela reclama.

Terminamos a nossa transa e acendemos um cigarro.

Estou sem voz pela noite passada, quando gritamos tentando um acordo para um levante.

— Somos tão poucos – ela diz e me beija.

Deito desolado até ouvir o barulho do jornal caindo em meu quintal. Vou até ele e me abaixo. Olho para os lados e a penumbra do dia permite um temor do que estava por vir.

É dezembro de 68 e o verão não está tímido, então por que a fumaça no ar?

Alguma lei na capa do jornal prometia ordem à nação. Já nós, sabíamos que não haveria qualquer progresso.

Volto a passos lentos.

Um panfleto de algum grupo de esquerda me é entregue por um menino sujo.

Nele consta: art. 2°: O Presidente da República poderá decretar o recesso do Congresso Nacional… art. 3° O Presidente da República, no interesse nacional, poderá decretar a intervenção nos Estados e Municípios, sem as limitações previstas na Constituição…

É isso, então?

No jornal a notícia é outra. Nele nos é pregado o restabelecimento da organização nacional.

Não me permito estar confuso. O ato é claro como água, e queima como fogo.

O panfleto não para por aí, agora diz sobre a suspensão de direitos políticos, no interesse de preservar a revolução, e a suspensão de garantias constitucionais.

Acabo de entrar em casa e sinto pena de olhar para ela. Meus olhos não obedecem a minha vontade e choram.

Sentamos na cozinha e ela me prepara um leite.

Estamos aéreos e cinzas como o estranho verão.

Um tiro. Uma sala. Uma escuridão. Vendas. Águas. Diversas solidões.

Um ano se passa e agora leio, em um banco velho da academia, o decreto 898.

Ainda querem sangue. Querem a pena de morte.

Quanto à punição perpétua, já fui condenado quando levaram com eles quase toda a minha sanidade.

Minha pele ainda está queimando e minhas unhas clamam por melhoras.

Já não tenho mais cabelos. E ela tinha razão: eram apenas migalhas de algo maior. Custou-lhe a vida pensar.

Preciso de café e de tempo, a minha rara liberdade mental pode estar com os dias contados.

Sinto o cheiro dela por todos os lugares que vou, mais uma tortura.

O que eles querem afinal? A minha morte gradual?

Sou apenas ossos, mas ainda penso. Acabaram com as nossas garantias, mas não farão o mesmo com a minha memória.

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