Desarquivando o Brasil LIII: Blogagem coletiva e Dia Internacional do Direito à Verdade

Por Pádua Fernandes
Do blog O Palco e o Mundo

Hoje (post publicado no dia 24/3), Dia Internacional do Direito à Verdade, ocorreram várias manifestações. Em Buenos Aires, marcha contra a “impunidad de ayer y de hoy”.

O Brasil começou neste ano a oficialmente festejar a data, criada pela ONU eem 2010, em homenagem ao arcebispo de El Salvar Óscar Romero, assassinado em 1980. No Rio de Janeiro e em São Paulo, artistas organizaram eventos para a comemoração. Nos dois lugares, a escritora e psicanalista Maria Rita Kehl, que é um dos membros da Comissão Nacional da Verdade, apresentou os trabalhos.

O dia também foi aproveitado para o lançamento da VII Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR. A jornalista Niara de Oliveira escreveu a chamada, esperando que outros blogueiros, como este, juntem-se à campanha: Quem não tiver um blogue próprio, poderá enviar um texto, que ele será publicado no blog DesarquivandoBR.

Pude apenas comparecer ao evento de São Paulo, que ocorreu na frente do Centro Universitário Maria Antônia, da USP, onde ficava a faculdade de filosofia dessa Universidade, e palco da conhecida batalha, em 1968, entre os seus estudantes, majoritariamente de esquerda, e os da Universidade Mackenzie, do outro lado da rua Maria Antônia. Nesta instituição, a direita dava as cartas; entre seus estudantes incluíam-se membros do Comando de Caça aos Comunistas, responsáveis pela morte do estudante secundarista José Carlos Guimarães.

Maria Rita Kehl abriu os trabalhos e chamou José Miguel Wisnik e Celso Sim, cuja participação havia sido anunciada na coluna de Monica Bergamo (o sítio da CNV não os mencionava).

Wisnik (o músico, ensaísta, professor aposentado e ex-aluno da FFLCH) fez o discurso mais interessante do evento, contando suas memórias da antiga Faculdade de Filosofia da Maria Antônia. Explicou que ela dialogava com o mundo e preparava para ele, ao contrário de instituições de hoje que só preparam para o mercado. Tinha saudades do nome Maria Antônia, uma “potência feminina”, tão diferente da sigla FFLCH, que lembrava FHC…

Ele relembrou nomes da USP que se engajaram na luta armada e morreram: Iara Iavelberg, Helenira Rezende e Suely Yumiko Kanayama. As duas últimas foram ao Araguaia e continuam desaparecidas, pois o Estado brasileiro segue descumprindo a sentença da OEA no caso Gomes Lund.

Wisnik relembrou a despedida de Kanayama, que não chegou a lhe revelar abertamente que iria para a clandestinidade. Mas ele disse ter sentido o que aconteceria. Apesar de ele ter destacado o caso dela, na matéria da Rede Brasil Atual sobre o evento a militante e desaparecida não foi mencionada.

Ele fez ainda uma afirmação muito curiosa: os torturadores seriam um tipo de “desaparecido político”, o “desaparecido covarde”, pois não quer aparecer… Nessa categoria, incluir-se-iam os empresários que financiaram a repressão política.

Em seguida, ele e Celso Sim declamaram, a capella, composição de Wisnik e Jorge Mautner: “A liberdade é bonita/ Mas não é infinita/ Eu quero que você me acredite/ A liberdade é consciência do limite”.

A Companhia do Latão, importante grupo, dirigido por Sérgio de Carvalho, assumiu então a frente do evento. Nesta página na internet, temos a ficha técnica da apresentação. Ela se estruturou a partir do texto “As cinco dificuldades de dizer a verdade”, de Brecht, escrito em 1934 contra os nazistas. Elas eram coragem, inteligência, arte (de manejá-la), discernimento (de escolher nas mãos de quem ela pode ser proveitosa), astúcia.
Tratava-se  de como instrumentalizar a verdade em favor da revolução. Poetas, só os engajados: os lamentosos não eram nem aliados nem inimigos.
Enfim, temos assim, novamente, a expulsão dos poetas de uma república, não agora a de Platão, mas desta outra república comunista, a de Brecht.

Não admira que o Latão tenha escolhido Brecht, muito pelo contrário. Trechos da Ópera dos Vivos e de Augusto Boal foram também cantados, com os mesmos problemas da interessante Ópera (ao lado, Adriana Mendonça, que cantou): um elogio sem nuances da luta armada (esse espetáculo é, teoricamente, uma aplicação cênica do questionável texto de Roberto Schwarz “Cultura e política, 1964-1969”) e um didatismo marxista.

Dessa forma, ouvimos canções sobre a forma universal da mercadoria e sobre o conceito de valor de troca (cantada com sensibilidade por Ana Luiza). Foram também problemáticos a falta de humor e o tom panfletário do texto do Brecht, em mais um de seus momentos autoritários de pregação ao mundo e aos poetas.

Enfim, havia muita habilidade e experiência cênicas em conseguir apresentar aquele texto, que, em mãos menos talentosas, serviria apenas a uma leitura enfadonha. A direção musical e o piano de Martin Eikmeier contaram para o sucesso da ocasião.

Musicalmente, porém, o melhor foi a seção de canções latinoamericanas de protesto, com destaque a Violeta Parra. Não sei o nome da cantora, que foi esplêndida. Se alguém puder informar… Agradeço.

Juçara Marçal cantou, acompanhada do violão de Walter Garcia, e também foi muito aplaudida.

Outro momento forte foi a apresentação darapper Roberta Estrela d’Alva, que eu não conhecia; ela iniciou com as  estatísticas de mortos e torturados na ditadura militar (incluindo uma referência aos processos do Ustra) e nos dias de hoje. Foram exemplos as vítimas da violência policial em São Paulo, no mês de maio de 2006, e a entrega de três jovens pelo Exército ao tráfico de drogas no Rio de Janeiro.

Nesse momento, no nível das escadarias, havia sido desfraldada a reprodução da imagem de várias mulheres que foram assassinadas pela ditadura militar.

Como na comemoração argentina, que era contra a impunidade de ontem e de hoje, Maria Rita Kehl chamou para falar Débora Maria, do Movimento Mães de Maio, que congrega os familiares das vítimas da violência policial em São Paulo.

Essa  fala não estava programada, mas foi breve e eficaz, numa espécie de resumo do que ela discursou no lançamento do Periferia grita: Mães de Maio Mães do Cárcere (nesta nota, tratei do evento). A bandeira das Mães foi exposta: “Justiça e liberdade/ Memória e verdade/ Contra o terrorismo do Estado”.

O bloco do Ilú Obá De Min, com muita energia, encerrou o evento, que durou aproximadamente duas horas. Ao lado, vê-se um manifestante que, desde o início, segurava o cartaz contra o senador Renan Calheiros e o deputado-pastor Marco Feliciano.

O deputado estadual Adriano Diogo (PT/SP), presidente da Comissão da Verdade “Rubens Paiva”, assistiu a todo evento, bem como Ivan Seixas, presidente do Conselho Estadual de Defesa dosDireitos da Pessoa Humana (Condepe) e diretor do Núcleode Preservação da Memória Política (ele pode ser visto à direita, na penúltima foto). O público não era numeroso, mas nele pude identificar o estudioso de justiça de transição Renan Quinalha, que colabora com a Comissão “Rubens Paiva”, participou da campanha para a aprovação da Comissão da USP e integra o IDEJUST.

Vi escritores e amigos presentes: além de Fabio Weintraub, estavam lá Donizete Galvão, Mario Rui Feliciani, Priscila Figueiredo, Renan Nuernberger e Ruy Proença.

O pesquisador da justiça de transição, Renan Quinalha, lá também estava.

Para terminar, relembro a chamada para a VII Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR, que durará até 3 de abril, com tuitaços nos dias 31 de março e 1º de abril a partir das 21 horas.

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