Desarquivando o Brasil XXXIII: A poesia de Julián Axat e o genocídio na Argentina

por Pádua Fernandes
no Blog O palco e o Mundo

Julián Axat

Eduardo Sterzi me pediu, e escrevi o artigo “Biopoder e biopoética na poesia de Julián Axat: yluminarya e o genocídio na Argentina” para a revista Literatura e autoritarismo. Ao lado, vê-se o poeta argentino antes de conferência que deu em São Paulo.

Não vou publicar o trabalho neste blogue, pois estará em breve plenamente acessível no endereço eletrônico da revista.

Eis o resumo:

O artigo trata da poesia de Julián Axat e das suas imagens do genocídio que ocorreu durante a ditadura militar argentina na poesia de Julián Axat. Este poeta, profundamente influenciado por Roberto Bolaño, cria uma “biopoética” para se opor ao biopoder do terror apoiado pelo Estado. Destaca-se o livro “Ylumynarya”, que expande os limites políticos da representação poética do terror, comparando-o com a escultura de Alberto Heredia, que também empregou o silêncio dos vestígios do corpo para denunciar a violência na Argentina.

E parte da introdução:

Quais são os limites políticos da representação em arte? A indagação, se tem como objeto os limites dados por um órgão censor, dependerá em parte das normas jurídicas, em parte do arbítrio das autoridades que exercem a função de polícia do pensamento. Se o objeto são os limites dados pela própria forma artística, a resposta dependerá do tipo de arte que se pretende fazer.
Na arte de entretenimento, esses limites podem ser bem estreitos. Alguns autores consideraram, por exemplo, “ensurdecedor” o silêncio da chamada cultura popular nos Estados Unidos diante dos ataques de 11 de setembro de 2011. Esse tabu pode ser notado em outros regimes de circulação de imagens, como o da propaganda eleitoral. Mesmo na campanha política espetacularizada de Bush, em 2004, as imagens das torres do World Trade Center foram retiradas depois de apenas algumas horas (Retort, 2008, p. 141).
Aquelas imagens são da devastação e, por isso, desafiam, com o caráter extremo de seu objeto, a representação. A cultura de entretenimento, que geralmente acolhe mal a negatividade (seria em vão esperar que Beckett seriamente inspire, por exemplo, um blockbuster hollywoodiano), pode dificilmente abordar certos temas sem afastar o seu público.[…]
Neste breve artigo, entre várias representações possíveis, tratar-se-á apenas da poesia de Julián Axat, poeta e editor argentino que nasceu em 1976, ano do último golpe militar em seu país. A ditadura que durou até 1983 e provocou a morte e o desaparecimento de dezenas de milhares, incluindo os pais de Axat.

O melhor do texto, evidentemente, é a poesia de Axat. A segunda parte do livro ylumynarya é um longo poema, com inspiração em Bolaño, sobre os mortos da última ditadura na Argentina.

A atividade do autor como poeta e editor pode ser acompanhada no blogue Los detectives salvajes; como jurista especialmente preocupado com os direitos dos menores (trata-se de sua área de atuação como Defensor judicial em La Plata), pode-se ler el niño rizoma.

Como o tema da violência dos regimes autoritários não é tão abordado assim na poesia brasileira dos autores mais jovens (uma exceção recente é de Ricardo Domeneck, outra é do próprio Eduardo Sterzi), deixo estes poucos trechos do poema dentro da série Desarquivando o Brasil.

Gui Rosey

“Gui Rosey nasceu em Paris em 27 de agosto de 1896. Colaborou com os Surrealistas desde 1932. Foi visto pela última vez em Marsella em 1941, entre os surrealistas refugiados que esperavam deixar a França. Desde então não se teve mais notícias dele.”

Penso em Gui Rosey
e evoco os nossos que também foram tragados pela terra
ou a terra que sobre eles jogaram/
sem saber se estavam mortos
aos contratados para achar seu túmulo
penso em Bolaño que também buscou Gui Rosey
e nós o imitamos para buscar os túmulos dos nossos
Marselha sempre a mesma
imigra ou emigra a formiga argonauta que leve seu nome
o dado preciso para dar com cadáver/corpo velocino
cometa capturado para sempre/nas goelas de uma ostra
traficantes de diamantes acendem flores
Rimbaud também desaparece em Marselha/com a garganta seca/apodrecida
a muralha de seu rosto/o poeta surrealista de 1941
o poeta de 2008 que o busca
porta assimétrica abrindo dimensões opostas
quantos vieram atrás do mistério
quantos se perderam/e nada…
somente um nome nos anais da poesia
nem uma pista na cidade que o leve
ao lugar da demolição/ da perda

[…]

O que faz um Filho?
filma seu rostro ou o pinta
bate uma foto e a coloca junto com a de seus pais
fica com a insignificância de um poema

formas de regressar ao instante
que reluz de perigo

eu conheço
um filho que/
encontrou um poema
de seu pai e
o fumou em
uma noite
de angústia

[…]

(o dia dos mortos ou a sociedade dos poetas
desaparecidos)

a noite de cada… no ano
os mortos (são mortos?) conspiram em ossários
rangem ossos ao armar-se e desarmar-se
a noite de cada… no ano
formas breves
no instante em que dura a junção
fartos da mão
monstro vertebrado de puro cálcio
avança sem arregimentar
caveiras com olho vazio na frente
canto ou lamento fuzilado do ultratúmulo
julgam-se
celebram-se
lembram-se
e entregam-se à muralha da noite
que nunca os esquece
que sempre os faz aparecer
em emissários disfarçados
filamentos que viajam para mim de manhã
para serem poema


onde está minha cotidiana herança de luz?

Quem há de serenar então minhas cem estátuas
que da luz se desprendem e enlouquecem?

[…]

Acho que é um dos grandes momentos da poesia latino-americana. Espero lançar em breve uma antologia em português da poesia de Julián Axat.

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