“Se não há justiça, há escracho!”

Por meio de protestos nas casas de militares, argentinos pressionaram por justiça

por Cristiano Navarro
da Reportagem – Brasil de Fato (10/04/2012)

Em 1995, durante uma série de homenagens a militantes mortos no período da ditadura Argentina, um grupo de parentes e amigos de desaparecidos políticos decidiu mobilizar-se contra a impunidade dos crimes cometidos pelo Estado.

Nessas homenagens, a partir de longas conversas, articulações e compreensão em torno das histórias de vida que tinham em comum foi que aqueles militantes decidiram criar a HIJOS – Hijos por La Identidad y Justicia, contra el Olvido y el Silencio (Filhos pela Identidade e Justiça, contra o Esquecimento e o Silêncio). “Organizarmo-nos para fazer algo com contra a impotência que nos causava ver que os militares, assassinos de nossos pais, estavam livres, caminhando livres pelas ruas”, lembra a militante do grupo Hijos de La PLata identificada como Vitoria. As leis Punto Final, de 1986, e Obediencia Debida, de 1987, durante o governo do presidente Raul Alfonsín, além dos indultos aos militares dados pelo presidente Carlos Menem, garantiam a impunidade aos cerca de 30 mil crimes de tortura, assassinato e desaparecimento cometidos pelo Estado durante a ditadura militar no período entre (1976-1983).

Onde estão?

“Já que haveria não justiça pelos crimes que estes genocidas cometeram, tínhamos que lutar para que a sociedade soubesse quem eram, o que haviam feito, porque estavam livres e etc. Foi assim que, junto com o Hijos, que nasceu a ideia de escrache”, explica Vitoria.

As mobilizações foram organizadas por Hijos nas cidades de Buenos Aires, La Plata, Córdoba, Rosário. “Se não há Justiça, há escracho”, espalhavam os militantes. A ideia era fazer justiça popular, sinalizando as casas dos criminosos com pichações, fazendo panfletagens e molestando-os por telefone. Por meio destes protestos os manifestantes faziam os vizinhos descobrirem que ali morava um militar criminoso e assim o repudiariam diariamente.

No início a polícia reprimia os escraches e a imprensa tratava de criminalizá-los com a pecha de violentos e ressentidos, “mas as nossas reclamações eram tão legítimas que ao final os escraches contra os militares acabaram sendo incorporados como ferramenta de luta da maioria das organizações sociais que faziam este tipo de protesto”, contextualiza Vitoria.

Punição

No ano de 2003, a então deputada Patricia Walsh – filha do escritor e jornalista Rodolfo Walsh assassinado durante a última ditadura – enviou o projeto de lei que em agosto deste ano anulou as leis Punto Final e Obediencia Debida, abrindo caminho para a punição de militares. Após a aprovação da lei e o crescimento da pressão popular pela punição dos crimes da ditadura, o quadro de impunidade se reverteu e cerca de 500 militares já foram condenados pela justiça argentina. No início deste mês, os primeiros escraches começaram a ser praticados no Brasil.

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