Jovens feridos em protesto no Clube Militar: “Fomos agredidos pela história de uma instituição”

No Hospital Pedro Ernesto, de onde concederam entrevista exclusiva para o QTMD?, dois jovens feridos na manifestação no Clube Militar seguram um exemplar do livro "Direito à Memória e à Verdade". Foto: Ana Helena Tavares

Por Ana Helena Tavares – do Quem tem medo da democracia?

Rodrigo Mondego - Foto: Ana Helena Tavares

Eles empunhavam cartazes com rostos. Rostos que não têm corpos.

“Ali, a gente não estava fazendo um carnaval, não estava fazendo palhaçada. Para ver um cara que foi do regime que matou rindo das fotos dos companheiros que foram mortos.

Gustavo Santana - Foto: Ana Helena Tavares

E  sumiram. Rindo também de gente que estava lá, que tinha sido torturada e que traz cicatrizes no corpo”, desabafa Rodrigo Mondego, de 27 anos, bacharel em direito, que esteve na quinta-feira, 29 de Março, em frente ao Clube Militar no Rio de Janeiro, protestando contra a comemoração do golpe de 64, promovida no mesmo dia por integrantes do Clube.

Ele não estava sozinho. Segundo seus cálculos, havia cerca de 700 pessoas. Gustavo Santana, sociólogo, de 28 anos, também estava lá. Ambos dizem ter sido agredidos por PMs. Mondego sofreu ferimentos leves, porém Santana teve o braço quebrado e terá que ser operado. Do Hospital Universitário Pedro Ernesto, onde está internado, ele e Mondego concederam entrevista exclusiva para o site “Quem tem medo da democracia?”.

Processo

Os jovens pensam em processar o Estado pelas agressões dos PMs e o Clube Militar por apologia ao crime: “Para mostrar que alguma coisa tem que ser feita. Porque nós ainda não chegamos ao ideal pretendido pelos que lutaram contra a ditadura e o Estado tem que ser responsabilizado pelas atrocidades cometidas naquele período”, diz Santana, que completa: “O troglodita que me agrediu pode até ter consciência do que fez, mas ele é produto de uma formação militar absolutamente equivocada. E temos que discutir, inclusive, porque a polícia tem que ser militar. Ela pode nos proteger, mas é o contrário. Então, nós não estávamos ali por um ato específico, estávamos por uma série de questões que têm que ser revistas”.

Denúncia

Os dois estão receosos pela vida de um colega, Felipe Garcês (conhecido como “Pato”), de 22 anos, que foi fotografado cuspindo em um militar e está sendo ameaçado de receber represálias. A foto (que pode ser vista clicando aqui) é da Agência Estado e foi publicada na Veja.com, no blog de Reinaldo Azevedo, que chama Garcês de “baderneiro”.

“Signatários da luta”

Tanto Santana como Mondego construíram sua militância política a partir do movimento estudantil. Mondego participou ativamente do grêmio do Colégio Pedro II – Humaitá, do DCE da Faculdade de Direito da UFRJ e, em 2009, foi um dos fundadores da Secretaria de Direitos Humanos da UNE. Santana foi diretor da Secretaria de Igualdade Racial da mesma entidade.

Eles consideram que participar do ato contra a comemoração do golpe foi uma obrigação cidadã: “Nós tínhamos a obrigação de estar ali. Muita gente deu a vida para que nós pudéssemos ter o direito à livre manifestação. E a essas mesmas pessoas foi negado o direito de ter história, porque muitos desapareceram. E acho que nós, como signatários dessa luta, temos que estar na rua para dizer que enquanto essas pessoas não aparecerem a luta ainda não acabou. A luta delas ainda existe e é a nossa luta.”, diz Santana. E pergunta-se: “Como se pode ter democracia com negação de memória?” Mas considera que “a nossa democracia tem sido construída, aos poucos, com distribuição de renda”.

“Disputa de corda com elástico”

Para ele, o Governo Federal está travando uma “disputa de corda com elástico” para conseguir colocar em prática a Comissão da Verdade. “Ao mesmo tempo em que a presidente Dilma sabe da importância dessa causa, ela vive tensionada de todos os lados. Eu não gosto muito desse termo, mas ainda é um governo de disputa. Falta o questionamento da militância. E é preciso que a sociedade pressione para que o governo se veja obrigado a não fazer outra coisa senão instaurar de fato a Comissão e abrir os arquivos. Tem que ter o respaldo da sociedade. O governo não fará nada sem isso.”, assegura Santana.

“Meu braço ficou pendurado”

O jovem sociólogo descreveu a forma como foi agredido na manifestação do dia 29: “Eu estava correndo e tomei uma pancada. Vi quando o PM me bateu e olhei na cara dele. Ele sabe que bateu para me machucar. Fumaça, bomba… Só  senti quando meu braço ficou pendurado.”, lembra Santana que conclui: “Vivemos num Estado Democrático de Direito, mas as atrocidades (da PM) são as mesmas.”

Assista a um trecho da entrevista de Gustavo Santana para o QTMD?

E se fosse contra a comemoração do nazismo?

Rodrigo Mondego, o outro jovem agredido, pediu que se faça um exercício imaginativo: “Um ato contra a comemoração do Nazismo em Berlim promovido por ex-combatentes nazistas. Contra a comemoração do Franquismo em Madri promovido por agentes do ditador espanhol Francisco Franco. Contra a defesa do 11 de setembro de 1973 em Santiago promovido pelos seguidores de Pinochet. Tais atos seriam condenados como o ato contra a comemoração de 1964?”, indaga.

Suporte civil

“Até a década de 90 era tabu falar em financiamento americano à ditadura. E agora? Quem ajudou naquele período? Quem deu suporte civil àqueles caras?”, continua indagando Mondego. E afirma: “Se houver mesmo Comissão da Verdade, terá que se falar sobre o apoio que a Globo deu à ditadura, sobre os carros que a Folha emprestou aos torturadores. Enfim, sobre a participação dos empresários da mídia brasileira, que ainda é muito reacionária.”

“Torturando os filhos dos torturados” 

Segundo ele, o ato contra a comemoração do golpe de 64 “começou de maneira pacífica, tranquila”. Considera que os militares participantes do evento pró-golpe, mesmo os que não foram torturadores, “estavam lá, por livre   e espontânea vontade, festejando um período onde houve estupro de militantes, pau-de-arara, desaparecimentos… O fato de ele estar comemorando aquele golpe faz com que ele esteja torturando hoje os filhos de todo mundo que foi torturado. Está torturando os filhos dos desaparecidos. Está fazendo apologia ao crime”

Ovos comprados na hora

Alguns manifestantes, sentido-se provocados por militares que, contam os entrevistados, “debochavam e faziam gestos obscenos“, resolveram comprar ovos na hora. Mondego estava com alguns na mão, quando ouviu de um senhor ao seu lado: ”Meu filho, me dá a honra de me dar um ovo desses para eu tacar num fascista.’” Ele tinha tido um irmão morto pela ditadura. “Aqueles ovos não davam para acertar em ninguém, tinha muita tropa de choque. Mas era uma questão simbólica. A gente queria tacar ovo na comemoração, não em ninguém específico”, pondera o jovem.

Pistola elétrica com manifestante já caído

Além da agressão que ele próprio sofreu, levando um soco na boca do estômago, Mondego conta ter presenciado a cena de um colega seu da UFRJ caído no chão e recebendo choque com pistola elétrica de PMs.“A organização do evento não foi boa e a polícia foi extremamente irresponsável. Muita gente apanhou. Muito gás lacrimogêneo… Enquanto isso, os militares saíram de fininho pelas escadas do metrô. Teve cuspe, porque provocaram. Mas ninguém os agrediu.”, garante. E completa: “A sensação que ficou é que, como eles nunca foram punidos, se acham no direito de debochar da história do país.”

Assista à parte da entrevista em que Rodrigo Mondego conta como foi o ato

Comissão da Verdade

Mondego tem uma trajetória de luta para levar a discussão sobre a importância da Comissão da Verdade para dentro das universidades. “Temos uma Constituição  democrática avançada em vários aspectos, mas estamos aí recebendo punição da OEA, da ONU, por causa Lei de Anistia. Não acredito que vá haver punição, e não queremos espancar os caras nem fazê-los sofrer como os torturados sofreram. É muito mais simbólico. É preciso que a história seja contada”, diz. Rodou o país participando de eventos sobre o tema e lamenta perceber que “no conjunto da sociedade, (este tema) está muito longe de ter espaço.”

Ele cita Nilmário Miranda e Paulo Vannuchi, ambos ex-ministros da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, e a atual titular da pasta, ministra Maria do Rosário, como pessoas que “colocaram o pé na porta”, dentro do governo Federal, e “se posicionaram firmemente a favor da Comissão”.

“A lógica não foi rompida”

Para ele,  esse não é um debate que interessa só à esquerda. “Tinham bandeiras vermelhas, socialistas, lá no ato… Mas esse debate é de todos. Porque a violência de ontem reflete hoje. A PM do RJ (matou 1.137 pessoas em 2009) e a de SP (matou 397 pessoas no mesmo ano) matam mais que a polícia dos EUA, que não é referência para nada, matam mais que o Iraque em guerra, que a África do Sul ou que qualquer polícia do mundo… Desaparecia gente antigamente (na ditadura) e continua desaparecendo… Pelas mãos de agentes do Estado…”, diz o bacharel em direito, que embasa sua fala apresentando estatísticas sobre “autos de resistência”, feitas pela ONG internacional Human Rights Watch.

A partir destes dados, Mondego buscou mostrar que sua luta, tanto quanto a de Santana, não é só pelas vítimas da ditadura. E exemplificou com caso recentes: “Lutamos por um cara que morreu e só acharam o corpo bem depois na Baixada Fluminense. Por uma engenheira que desapareceu na Barra da Tijuca e tudo indica que foi morta por policiais, mas ninguém sabe… Lutamos por um senhor, morador do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, que estava lá furando a parede de sua casa, levou um tiro na cara, e a justiça do Estado Democrático de Direito entendeu que o policial não teve culpa. Porque a lógica (da ditadura) não foi rompida no Brasil”, conclui.

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