Fotógrafo reaviva a memória sobre a ditadura

Fonte: DiárioOnLine

Fotógrafo reaviva a memória sobre a ditadura (Foto: Michel Pinho/ Divulgação)

(Foto: Michel Pinho/ Divulgação)

Era fim de março de 1964. O sufocante silêncio precedia o começo de um tempo de violência. Horas mais tarde, a ditadura militar tomaria a cidade de Belém. O General Ramagem, chefe do Comando Militar da Amazônia na época, ordenou a prisão de centenas de políticos, estudantes e trabalhadores a partir do dia primeiro de abril de 1964. “Os soldados entraram quebrando tudo. No comando, o coronel José Lopes de Oliveira já entrou dando um tapa no rosto de José Seráfico de Carvalho, meu colega na Faculdade de Direito.

Rente a mim voavam pedaços da divisória de madeira e vidro na minha sala, arrebentados por um soldado a coronhadas de fuzil. Vi uma bandeira brasileira estraçalhada no assoalho, vi a turma de estudantes de braços erguidos contra as paredes no salão, vi a brutalidade irracional investindo contra cadeiras, mesas, armários, equipamentos de som.

Não vi, e foi melhor não ver, o nosso teatrinho ser destroçado, o Teatro de Arte Popular, que construímos no quintal da sede. Vi o medo no ar”, relembra, em depoimento aos pesquisadores Raquel Cunha e Flávio Leonel Abreu da Silveira, o hoje publicitário Pedro Galvão, à época estudante de Direito e presidente da União Acadêmica Paraense. A pesquisa da dupla, publicada no artigo “Um olhar à cidade de Belém sob o Golpe de 1964: paisagens e memórias de estudantes e artistas”, serviu de rastro para o fotógrafo e historiador Michel Pinho investir contra a mudez diante do recente passado da cidade.

“Não podemos e nem devemos esquecer que a democracia brasileira é uma conquista recente. Os crimes que os agentes do Estado cometeram como estupro, sequestros seguidos de morte e ocultação de cadáveres são hediondos. A anistia foi promulgada em 1979 pelo general Figueiredo e impede a prisão desses homens. Temos que rever essa decisão”, diz Pinho, que lançou mão da imagem para protestar contra a obscura memória dos tempos de chumbo em Belém.

Intervenção busca despertar o diálogo
O projeto “Golpe de 64” levou Michel a endereços para os quais os presos políticos foram levados naquele período. Em frente aos prédios, placas que imitam sinalização de trânsito identificavam os locais onde as prisões e torturas eram executadas. “A fotografia atua nesse caso como elemento de recuperação de parte de uma memória, entra como sinalizadora de um espaço urbano pautado no passado que teima em não ser apagado”, diz o artista, que realizou a intervenção em lugares como Casa das Onze Janelas, Largo da Trindade, Casa do Estudante Universitário do Pará, além das avenidas Nazaré e José Malcher. “Optei por esses lugares por serem mais conhecidos do público, e, apesar disso, ter seu passado ignorado. Mas os centros de tortura e prisão foram mais numerosos. A intervenção visa despertar o diálogo sobre esse período, motivar a população a buscar informações que hoje ainda estão impossibilitadas de serem pesquisadas. Belém não pode continuar com a marca do silêncio. Ao rever os locais da ditadura, discutimos sobre o tema”.

Esforço coletivo contra o esquecimento

O projeto começou a ser pensado ainda em 2008, quando Michel estava à frente da Associação Fotoativa e promoveu um ato lembrando a publicação do AI-5, decretado em dezembro de 1968 pelo general Costa e Silva, que inaugurou a fase mais dura do regime militar, se estendendo até 1985. Em 2009, Michel viajou para Santiago do Chile, que também foi alvo da repressão, e lá testemunhou a luta pelo respeito àqueles que lutaram contra a ditadura. “Fiquei muito impressionado com a mobilização estudantil e operária contra a possibilidade de libertar os torturadores. Cheguei no dia de uma greve geral que paralisou a cidade.

Tempos depois, em setembro do ano passado, publiquei uma fotografia no Facebook sobre o Palácio La Moneda, que foi alvo do bombardeio do general Pinochet, e o Professor Doutor Ernani Chaves fez um comentário sobre a importância de discutir esses temas para não caírem no esquecimento. Ficou muito claro que eu deveria concretizar o projeto”, diz Pinho.

No último sábado, Michel foi às ruas da cidade. Nas placas, os dizeres “Repressão Militar Aqui #torturanuncamais”. “Imaginei que a fotografia digital possibilita junto com as redes sociais, canais bastante significativos para o exercício da democracia. A surpresa maior foi a reação na internet. Pessoas mandaram mensagem lembrando, dando sugestões e pasmo vi um rapaz defendendo as arbitrariedades e me chamando de oportunista. São os ecos da ditadura”, relata Pinho, que buscou seguir os relatos das invasões aos prédios há mais de 48 anos. “Segui pelo cerco da Avenida Nazaré e por ai adiante. Por isso, fotografei à noite. Uma parte significativa do público olhou com muita estranheza a intervenção”.

Antes a tortura, hoje espaço de lazer
Para os pesquisadores Raquel Cunha e Flávio Silveira, resgatar a memória impregnada nesses locais é fundamental para questionar o processo de resignificação de tais cenários, que faz da história ali vivida uma espécie de “memória subterrânea” da ditadura na capital paraense, que obscurece e nega o momento de terror imposto pela repressão política. “O antigo Forte do Presépio e também antigo Hospital Militar, hoje a atual Casa das Onze Janelas, é um exemplo de espaço que foi resignificado quanto ao seu uso e transformação material. Um lugar que outrora foi uma cadeia, onde pessoas foram torturadas, ou mesmo um lugar de tensão entre índios e colonizadores durante a conquista das terras amazônicas, foi reconfigurado como um espaço de lazer e consumo”.

“Até hoje eu sinto muito mal-estar ali na famosa Casa das Onze Janelas, que foi transformada num lugar festivo, quando ali foi um lugar de prisões, de torturas, um dos pólos de atuação da fase militar mais duras e isso ficou esquecido pela restauração do prédio, como passando uma borracha em cima. Não há um registro das pessoas que foram presas nos lugares e onde eram as celas que a gente ficava.E lá eu sofri torturas no sentido de tapas na cara e ameaças, de não deixar dormir a noite inteira, exatamente o lugar onde hoje funciona o restaurante”, critica o escritor paraense João de Jesus Paes Loureiro, em depoimento registrado pelos pesquisadores.

“Os locais que relembram a violência da ditadura são expropriados os seus significados, atuando numa espécie de esquecimento coletivo diante daquele tempo de terror. As formas para obscurecer esse passado se dão também de maneira sutil e quase imperceptível. Mas a memória resiste pela voz dos relatos de quem viveu aquele momento. E todo esforço para resistir ao esquecimento é valioso”, defende a dupla.

Memórias Subterrâneas
Hoje pontos turísticos, prédios de Belém foram cenários de tempos de chumbo.

Largo da Trindade
A Praça da Trindade foi cercada pelos militares na década de 1970 para servir de tribunal para o julgamento dos padres participantes da Guerrilha do Araguaia, movimento armado criado pelo Partido Comunista do Brasil que atuou na região amazônica. A maioria dos combatentes, formada principalmente por ex-estudantes universitários e profissionais liberais, foi morta em combate na selva ou executada após sua prisão pelos militares, durante as operações finais, em 1973 e 1974. Mais de cinquenta deles são considerados ainda hoje desaparecidos políticos.

Casa das Onze Janelas
Construída no século XVIII, em 1768, a casa foi adquirida pelo governo do Grão-Pará para abrigar o Hospital Real. O hospital funcionou até 1870 e depois a casa passou a ter várias funções militares. Lá, funcionou a 5º Companhia de Guardas, destino de diversos presos políticos e cenário de tortura. (Diário do Pará)

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