“Como se fora brincadeira de roda”

Do blog Quodores
Por Fernando Amaral 

Eram cinco ou seis anos de idade. Antes de ir parar no Colégio Objetivo. Antes de querer ser o Zé Sérgio, o estupendo e genial e espetacular ponta esquerda do São Paulo Futebol Clube. Antes de gostar de cinema. Era a escola “Baratinha Azul”. E são lembranças esparsas, algumas com cores, outras sem. Um ou outro perfume, um ou outro rosto. De minha vó Tereza contando histórias, diversas delas – minhas preferidas, as estórias de lobisomem lá de Joanópolis, terra onde ela nasceu. De minha mãe Maria Helena contando histórias também, lia livros de criança, aos montes. Da mãe fazendo altas estripulias para que a gente se aprontasse a tempo de ir para escola. De uma festinha do dia dos pais em que eu fui fantasiado de Seu Nilton, de terno e gravata. De meu irmão fazendo planos nas brincadeiras de faroeste. De assistir cinema com meu pai e o Du na Galeria Metrópole – Superman. De minha mãe, também no cinema, lá no Bristol ou no Liberty, “Bugsy Malone” – em português, a irresistível tradução “Quando as metralhadoras cospem”. Enfim, memórias. Reminiscências. Belezas, distantes demais, infelizmente, já que quase, bem quase, quase mesmo, aos quarenta anos.

E há uma lembrança da ditadura. Duas, na verdade. Sim, a ditadura era o governo dos militares. Um governo feio, já que este é o único adjetivo perverso para um menino de seis anos de idade. A primeira lembrança de um cantarolar no recreio da tal “Baratinha Azul”… “Vai trabalhar vagabundo”. E a moça me chamando num canto dizendo que “vagabundo” era uma palavrinha feia – o adjetivo mais perverso de todos… Soube, depois – e talvez por isso esta memória me seja viva, correndo sério risco de ser uma daquelas que a gente constrói na cabeça da gente, tipo a primeira vez que vimos “Papai Noel” correndo pela escada do prédio-, que meus pais foram chamados na escola para uma reprimenda oficial: “Seu filho anda falando palavrão na escola”. E Seu Nilton, perguntou: “Que palavrão???”. “Vagabundo”. E ainda fizeram troça com a música do Chico Buarque, emendou a explicar Dona Maria Helena. Era um país onde Chico Buarque e “Vai trabalhar vagabundo” não eram cousas para um menino de classe média sair por aí cantarolando sem pudores e vergonhas… Evidentemente que a conversa sobre o significado daquela reprimenda escolar só foi debatido, explicado e se tornado piada muito tempo depois. Mas guardo a cara do meu pai: “Um absurdo aquilo.”. Era um absurdo, mesmo. Era proibido. Era daquele jeito.

A segunda lembrança é a de uma peleja de futebol, por óbvio. Minhas memórias são mantidas e alimentadas por partidas de futebol. Mas este é um tópico para outros textos. Quero falar da ditadura e das minhas memórias sem sapatos e de shorts. O jogo era a final da Copa de 78 na Argentina, entre os hermanos e os holandeses, o “Carossel”. “Fernando, pra quem você está torcendo?” Sabe-se lá quem perguntou. Mas foi na casa de minha vó, todos reunidos na cozinha, junto ao radinho de pilha, a TV com bombril na antena. “Argentina”. E ouvi a resposta: “Não torce pra Argentina não. Se eles ganham a Copa os militares vão matar mais gente, o governo vai matar mais gente, vai piorar…”. A gravidade das assertivas: “matar gente” e “vai piorar”. Provavelmente a resposta não foi exatamente esta. Provavelmente meu pai, minha mãe e meu vô João devam ter dito algo a favor dos holandeses, mas nunca nestes termos que minhas memórias insistem em martelar. Mas a memória, ainda mais esta que lembra das infantilidades, tempos em que sorrisos eram mais sinceros e tristezas eram mais lamentadas, embora mais simples e finitas, nos fica ali a demonstrar quem somos, quais os tijolos estão nas fundações.

Tenho quase quarenta anos. E ainda assim tenho minhas memórias de criança e faço questão de conversar com elas, aprender, ouvir, construir, pesquisar, reconhecer, saber. E fico cá a me perguntar por quais raios o Brasil insiste em negar sua memória e a macular, por outro lado, a memória de tantos brasileiros que ousaram cantarolar vagabundices pelos cantos deste país. Fico cá a me perguntar se o que temos é covardia de enfrentar militares de pijamas e polainas ou é medo de descobrir que o aparelho repressor do Estado continua o mesmo, com os mesmos tijolos. Será que temos receio de descobrir os cúmplices civis que não só silenciaram como se locupletaram e perceber que estes andam por aí, que jantam sem culpa e que brincam de democracia nos quintais do poder? Será que receamos conhecer os mecanismos de financiamento da repressão e de sustentação ao poder político e como num “plim-plim” perceber que as coisas continuam com a mesmíssima fundação? Será que nossa vergonha é tamanha que não teremos a dignidade de pedir desculpas? Será que temos o pavor de descobrir corpos de desaparecidos políticos em covas clandestinas e encontrar nestas covas outros clandestinos pobres, negros, índios, crianças de rua, mulheres? E perceber, aturdidos, que estas covas continuam a serem alimentadas, cotidianamente?

E ainda assim tenho memórias, perguntas, dúvidas e dívidas. E é bom reconhecer que, felizmente, não estamos sozinhos.

Por fim, o link no VocêTubo do “Redescobrir” do Gonzaguinha, na voz da Elis, que inspira o título deste texto:

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