Argentina investiga desaparecimento de pianista brasileiro

Por Tatiana Merlino / Caros Amigos

Tenório Jr., pianista de Vinícius de Moraes, desapareceu em 1976 em Buenos Aires

Passados mais de 35 anos, as reais circunstâncias da morte de Francisco Tenório Jr., o Tenorinho, pianista de Vinícius de Moraes que desapareceu em março de 1976, em Buenos Aires, podem ser esclarecidas.

O procurador federal argentino da causa penal da Operação Condor, Miguel Angel Osorio, que investiga delitos praticados pela aliança político-militar criada entre ditaduras da América do Sul para coordenar a repressão a opositores, abriu, no mês de fevereiro, uma investigação formal sobre as circunstâncias da morte de Tenorinho. “E como estou investigando formalmente a morte do músico, entre outras coisas pedi a extradição de Vallejos”, disse à Caros Amigos, em entrevista ao telefone, durante sua breve visita ao Brasil, para participar do 5º Encontro Latino Americano Memória, Verdade e Justiça, ocorrido em Porto Alegre (RS), nos dias 29, 30 e 31 de março.

O argentino Claudio Vallejos, que afirma ter atuado na repressão a presos políticos na Esma (Escola de Mecânica Armada), um dos maiores centros de detenção clandestina da Argentina durante a ditadura no país (1976-1983), onde cerca de cinco mil pessoas foram mortas e desaparecidas, foi preso no começo de janeiro acusado de estelionato. Em 2010, o argentino, que vive há mais de 30 anos no Brasil, já havia sido preso pela Polícia Civil por estelionato.

Em 1986, durante entrevista à revista “Senhor” (nº 270), ele admitiu ter matado 30 pessoas e falou sobre o destino de diversos brasileiros nas mãos da ditadura argentina. Entre eles, Sidney Fix Marques dos Santos, Luiz Renato do Lago Faria, Maria Regina Marcondes Pinto de Espinosa, Norma Espíndola e Roberto Rascardo Rodrigues. Afirmou, também, ter participado do assassinato do pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Jr., o Tenorinho. O músico, que não militava em nenhuma organização, tocava com Vinícius de Moraes em Buenos Aires, na Argentina, em 1976, quando desapareceu após sair para ir a uma farmácia. Seu corpo nunca foi encontrado.

Durante o encontro ocorrido em Porto Alegre, o procurador argentino Miguel Osorio entregou uma cópia do documento referente à abertura do processo relativo ao pianista desaparecido à Jair Krischke, do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), que assessora o procurador federal. Veja trechos da conversa com Osorio.

Caros Amigos – Quando e como foi o início da causa penal da Operação Condor e há quanto tempo o senhor atua na causa?
Miguel Angel Osorio – A causa que hoje se conhece como Condor se inicia em 1997, considerando os delitos se chamam de delitos permanentes. Assim, com esse conceito jurídico começamos a investigação que em princípio não se chamava Condor, e tinha o nome de um general que é réu. E depois foram se incorporando casos e a causa se desmembrou, foram abrindo-se conjuntos de investigações. Assim, em 97 em algum momento começou a se configurar o que hoje se chama Causa Condor, e nesse momento temos quase 200 casos em curso de investigação.

CA – E sobre a prisão de Claudio Vallejos, o senhor acha que ele pode ajudar na elucidação do Plano Condor?
MAO – Na verdade, não acredito nem desacredito. Eu pedi a sua prisão concretamente a partir das declarações que ele fez há pouco tempo depois de sua prisão, no final de fevereiro. O período de detenção está tramitando e então veremos o que ele pode trazer para essa investigação.

CA – Quais são as informações que o senhor tem sobre Vallejos?
MAO – Não temos elementos que indiquem Vallejos como integrante do grupo de agentes de inteligência da Marinha, como ele disse que era, e tampouco como integrante do aparato militar. Não há registro dele como militar e como pessoa de inteligência, ao menos formalmente. Digo oficialmente porque o que aconteceu na Esma [Escola de Mecânica da Armada, um dos maiores centros clandestinos de detenção da ditadura Argentina, ocorrida entre 1976 e 1983] ninguém dá conta, e a Marinha, oficialmente, diz que não sabe o que aconteceu lá, que não há nenhum registro. Quando eu peço o registro das vítimas que passaram ali, eles dizem “não o temos”. Bom, oficialmente, a partir da perspectiva oficial, Vallejos apenas foi soldado. Até agora, isso é tudo que há oficialmente sobre essa pessoa.

CA – Em entrevistas à imprensa brasileira no ano de 1986, Vallejos falou sobre o caso Tenorinho, o senhor acredita que ele poderia ajudar na elucidação do caso do pianista?
MAO – Tomara que assim seja. Entre outras coisas, é por esse motivo que pedi que ele seja extraditado para a Argentina. Uma investigação formal sobre o músico recém começou agora em fevereiro, para saber o que aconteceu com ele. De acordo com as informações que eu tenho, o músico teria sido sequestrado dias antes do golpe militar, e a morte haveria ocorrido dois ou três dias depois do golpe. Então eu me apoio nisso para poder abrir a investigação. Então, agora, formalmente, a Argentina está investigando na Causa Condor a morte do músico. E como estou investigando formalmente a morte do músico, entre outras coisas pedi a extradição de Vallejos.

CA – E sobre a participação do governo do Brasil na causa Condor. O senhor acredita que Vallejos poderia ajudar no esclarecimento? Na entrevista de 86, Vallejos falou da participação de uma pessoa da embaixada do Brasil em Buenos Aires, que teria ido à Esma ver Tenorinho.
MAO – Veremos de que maneira que isso se pode esclarecer, ele pode ser um mitômano ou estar falando a verdade. Veremos isso a partir do que ele declarar quando estiver em Buenos Aires, então. Porque ele pode querer ou não querer colaborar. Se for indiciado, pode confirmar essa informação ou negá-la. É difícil antecipar o que ele pode dizer. Se ele incriminar um funcionário brasileiro, temos que ver de que maneira teremos acesso à informação, ouvi-lo, tentar ter acesso a algum documento que o governo brasileiro tenha.

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