Os netos da ditadura choram seus mortos

Por Miguel do Rosário 

Belíssima e pungente a crônica de Hildegard Angel sobre a manifestação de jovens ocorrida no último dia 29, na Cinelândia. A colunista passava por acaso pelo local, desceu do carro e assistiu ao tumulto, emocionando-se profundamente em ver tantos jovens protestando por uma dor tão antiga. Angel viveu essa dor na própria carne, pois seu irmão, Stuart Angel Jones, era também um jovem militante político, assim como eram os garotos entoando slogans anti-ditadura em frente ao Clube Militar. Stuart foi preso, torturado, morto (conforme relato de testemunhas) e seu corpo jamais foi encontrado.

Lembrei-me então da única vez que vi meu pai chorando. Irrompemos em casa subitamente, e flagrei-o sozinho no sofá da sala, com lágrimas escorrendo e uma tristeza estampada em seu rosto como eu jamais vira. Meu pai era um tipo sertanejo forte, como diria Euclides da Cunha. Veio de Araguari, rincão isolado de Minas Gerais, próximo à fronteira com Goiás, terra de jagunços.  Miraculosamente, virou intelectual e veio estudar e trabalhar no Rio de Janeiro. Essas coisas aconteciam com frequência no Brasil daqueles tempos. Vide Drummond, nosso maior poeta, que emergiu misteriosamente de Itabira, e Guimarães Rosa, cuja aparição algo mística eclodiu em Cordisburgo; ambas cidadezinhas perdidas e decadentes do interior mineiro.

Meu pai enxugou as lágrimas e fechou-se e eu jamais soube porque ele chorava. Um dia, porém, pensando no assunto, tive a sensação poderosa de ter descoberto: ele havia lembrado de seu irmão! Eu sabia que aquele era o fato mais triste em sua vida, cujas dores eu mesmo havia experimentado na infância, pois eu tinha seis anos quando aconteceu a tragédia.

Francisco do Rosário Barbosa, meu tio, foi espancado e torturado até a morte por policiais da 9ª Delegacia do Catete, em 1981. A razão? Absolutamente nenhuma. Foi morto por nada. Porque a ditadura criara monstros, que tinham prazer em matar. Os vícios da ditadura permanecem até hoje, como se pode ver pelas estatísticas de Rio e São Paulo, onde a polícia figura como uma das principais responsáveis por homicídios e corrupção.

Aconteceu assim. Meu tio voltava de um trabalho noturno numa empresa de clipping jornalístico. Morava em Copacabana e estava dentro de um ônibus na Praia do Flamengo quando policiais pararam o veículo. Os agentes entraram e pediram documentos a cada passageiro. Francisco protestou timidamente contra os modos, provavelmente não muito gentis, pelos quais os pms abordavam os passageiros.

Eu não estava lá, mas eu sei que foi um protesto tímido porque meu tio, assim como todos os Barbosa, são uma raça de tímidos. Meu pai e seus irmãos todos falam baixo, pausadamente, são extremamente cordatos, pacíficos, corretos, educados, como aliás é a maioria do povo mineiro.

Pra quê?  Com que razão meu tio havia feito aquilo? Uma pessoa mais sabida saberia que mesmo um pequeno gesto era perigoso naquela época. E no entanto, Francisco, um jovem com menos de 30 anos, recém casado, não conseguiu se conter. Protestou contra os maus modos dos policiais ao abordarem trabalhadores voltando cansados para casa num ônibus coletivo.

Ali mesmo no ônibus, Francisco foi violentamente espancado. Depois foi levado à delegacia e torturado até a morte.

Francisco era muito amado pela família. Tinha nove irmãos, um pai e uma mãe, todos sentimentais e muito apegados uns aos outros. A dor foi profunda. Meu pai reuniu os familiares desconsolados e disse que a única maneira de darem sentido àquele sentimento de devastação e perplexidade, a única maneira de não permitir que degenerasse em amargura, frustração e esta horrível sensação de impotência e covardia que nos arrasa quando uma força acima de nós destrói um ente querido, a única maneira digna de lidar com aquela tragédia, era usá-la como instrumento de luta para derrotar a ditadura!  Meu pai então dedicou-se com todas as suas forças para mostrar ao Brasil que a ditadura, embora já flertasse com a abertura política, era um monstro que precisava ser extirpado. Foi à TV, às rádios, aos jornais, contratou advogados, e foi, eu acho, o único caso durante o regime em que se conseguiu levar os responsáveis à prisão. Meu pai venceu. Botou delegado e sub-delegado na cadeia, condenados pela Justiça comum. Se é difícil realizar algo assim nos dias de hoje, imagine naquele tempo! Eles foram soltos alguns anos depois, mas acabaram ambos assassinados por algum bandidinho local que eles devem ter torturado.

A prisão dos responsáveis só foi possível, naturalmente, porque ainda não havia Anistia…

Eu já escrevi sobre esse mesmo assunto por aqui, em duas oportunidades. A primeira foi em 2007, numa crônica sobre o livro que meu pai escreveu sobre o assassinato do irmão, “Quando a polícia mata”. A segunda foi em 2009, por ocasião dos protestos contra a Folha pelo uso do termo “ditabranda”, quando eu escaneei o livro do meu pai e disponibilizei-o gratuitamente na internet.

Lendo a crônica da Angel, como eu ia dizendo, eu vi que as lágrimas que ela verteu ali em frente ao Clube Militar, assistindo uma geração tão jovem protestando contra a celebração de uma data que simboliza, em verdade, uma traição à pátria, aos direitos humanos e às esperanças que milhões de brasileiros alimentavam, à época, de construírem um país mais justo, as lágrimas de Angel eram as mesmas lágrimas do meu pai, eram as lágrimas de toda uma geração.

É comovente constatar que essa dor ainda não morreu, mobilizando jovens que não viveram a ditadura, mas a conheceram em espírito. Nos protestos da Cinelândia vemos o verdadeiro significado da palavra História. Nada morre. Tudo que acontece a um país permanece vivo, eternamente, para o bem e para o mal. A truculência dos militares contra a sociedade civil, a sua agressão à democracia e aos direitos soberanos do povo, ainda são e sempre serão, chagas vivas, abertas, no coração da história brasileira.

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