Ele não era Chico Buarque

Do blog Transmitindo e Comunicando
Por Marcelo Arruda 

Não era a primeira música crítica que Luiz Ayrão fazia. Mas como falei antes, havia uma certa cegueira ao brega. O livro “Eu não sou Cachorro Não” de Paulo César Araújo, que fala sobre como estes artistas foram tão ou mais perseguidos pelo regime militar quanto os artistas de “autorizados pelo cânone oficial da MPB” a serem “engajados”.

Lançada dia primeiro de abril de 1977, o nome original desta canção era “13 anos”.

Façam as contas…

A Censura fez. E vetou a música. Com os discos prontos para ir para as lojas.

Ao mesmo tempo, o senador Nelson Carneiro estava com a campanha do divórcio no Congresso. Até a aprovação do divórcio, só era possível desquitar-se, ou seja, dissolver a sociedade conjugal, com separação de corpos e bens, mas sem quebra do vínculo matrimonial. As pessoas se separavam, mas não podiam casar-se de novo. Nem lhes era permitido viver com outra pessoa.

Esta conjuntura dialogava com a letra da música. Desejo de ruptura com aquilo que prejudica outrem. A música foi apresentada para uma outra câmara da censura, com a mesma letra, mas com nome diferente: “O Divórcio”. Um outro setor de censura julgou e deixou passar. Quando perceberam o drible, já era tarde, a música já havia estourado.

Havia intencionalidade de enfrentamento neste ato. Mas por algum motivo, as canções proibidas de Luiz Ayrão não lhe traziam o mesmo prestígio de Chico Buarque, por exemplo. Segundo Paulo César de Araújo, “os críticos, pesquisadores, musicólogos, enfim, os formadores de opinião, em sua maioria, pertencem a um segmento de classe média e formação universitária. O tipo de público que faz seu julgamento através da defesa do “autêntico”. (…). O que não for tradicional ou moderno não existe. Devido ao divórcio que existe entre a elite e o povo no Brasil, os ditos “cafonas” foram atirados no limbo da história.” Ironicamente temos aí um encontro entre direita e esquerda no silenciamento de expressões populares, o que ajudava, e muito, o projeto ideológico da Ditadura Civil-Militar de dominação pela supressão de outras narrativas que não as canonizadas.

A Música Popular Brasileira que conhecemos do período assim passou por vários mecanismos de filtragem. Alguns continuam até hoje, semi-oficialmente. Saber a respeito ajuda a perceber a ruptura e, talvez, pensar Cultura Brasileira em novas perspectivas.

Não divorciadas do povo como narrador da própria história.

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