Contra a ditadura militar: o Cordão da Mentira e Armando Freitas Filho segundo Renan Nuernberger

Do blog O Palco e o Mundo
Por Pádua Fernandes

O Cordão da Mentira vem “repudiar o evento de celebração do golpe militar de 1964, realizado no Círculo Militar do RJ, e a ação violenta da Polícia Militar do RJ contra os manifestantes no dia 29/3/12. O Cordão classifica tais acontecimentos como, no mínimo, lamentáveis.” O coletivo é “composto por coletivos políticos, grupos de teatro e sambistas de diversos grupos e escolas de São Paulo”.

Ainda não o conheço, mas pretendo participar do desfile em repúdio ao golpe de 1964.
Vejam, na página do Cordão, os vídeos da manifestação, no Rio de Janeiro, contra a comemoração que militares da reserva fizeram do golpe militar. Vejam as bombas e o laser da polícia. Forma os acontecimentos do último dia 29 de março. Dois dias depois, em São Paulo, em lançamento dos novos títulos da coleção Ciranda de Poesia da EdUERJ, coordenada pelo professor Ítalo Moriconi, o professor contou-me que um estudante da UERJ teve o braço quebrado pela polícia na manifestação contr ao golpe e foi tratado no Hospital Universitário.

No dia primeiro de abril, dia do golpe, o Cordão da Mentira desfilará em São Paulo, do Cemitério da Consolação, a partir das 11:30h, até a Rua Mauá, para chegar ao antigo DOPS, hoje Memorial da Resistência. O Cordão explica aqui o trajeto, cujo mapa segue abaixo.

Trata-se de manifestação cultural, com intervenções teatrais. Estou curioso para ver o que ocorrerá, que linguagens artísticas far-se-ão ouvir e ver.

E volto à coleção da EdUERJ organizada por Moriconi. Na Ciranda de Poesia, cada volume é dedicado a um poeta, com um ensaio e uma antologia. Renan Nuernberger é o autor do volumeArmando Freitas Filho, conhecido poeta contemporâneo que viveu os tempos da ditadura militar.

O livro é muito bom e atesta o grande talento crítico de Nuernberger, que analisa, entre outros títulos de Armando Freitas Filho, A flor da pele, de 1978 (tabloide republicado no livro À mão livre, do ano seguinte), que trata da tortura e da violência reinantes no Brasil da época. Sua última seção toma significados do verbete pele do dicionário Aurélio, deformando-os (torturando-os, creio). Um exemplo: “Estar na pele de, e enfiar (no outro) agulhas sob as unhas. Estar na posição (para ser enrabado por muitos), situação, etc., ocupada por (alguém), e então avaliar o porquê de todo esse sofrimento; estar no lugar de, pois as coisas mudam.”

Creio que discordo da interpretação de Nuernberger nesse ponto. Ele vê alternância de vozes e da posição dos indivíduos (torturado e torturador) nessa passagem, pois as “coisas mudam”. Mudam? Não, o poema é irônico a respeito, como se vê depois: “o país não tem memória nacional”, a impunidade é garantida para sempre: “Tirar sua pele de você, sua identidade. Gozar na pele de, impunemente, com a polícia a seu favor, para sempre. Cortar a pele de, e esquecer tudo isso bem depressa, pois agora a história é outra, as águas passadas não movem o moinho, e o Brasil é feito por nós?”

Concordo com Nuernberger, no entanto, em sua conclusão sobre o poema:

O poema deixa em aberto a possibilidade iminente de novas investidas da truculência para além da ditadura militar. Embora se possa esquecer toda a violência ocorrida nos porões do DOPS e do DOI-CODI, essa mesma violência – em diferentes tempos e locais – pode emergir da mais oculta das entranhas do Brasil que, por não a ter enfrentado durante o processo de abertura democrática, mantém o fantasma da tortura e prisioneiros políticos em latência. [p. 43]

O esquecimento dessa violência é, justamente, um dos fatores para a truculência de hoje. Para lembrar de ambas, além da leitura do livro, sugiro, para quem estiver em São Paulo, a participação no Cordão da Mentira. Escolher, para a caminhada, o DOPS como ponto final deve significar a firme vontade de que ele não seja o ponto final, ou recorrente, da história do Brasil.

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