5ª Blogagem Coletiva #desarquivandoBR

Do blog Imprensa Nanica
Por Danieli Bispo Guadalupe 

Outro dia assisti, na companhia do meu sobrinho, um filme dirigido pelo Clint Eastwood e protagonizado pela Angelina Jolie. Na trama do filme “A troca”, Angelina tem seu único filho sequestrado e na ânsia de conseguir calar as reclamações da população (e da mãe) a polícia local a induz a receber um outro menino no lugar de seu filho desaparecido. Muitos abusos são cometido pela polícia até que um policial  vai atrás de um pista e descobre um assassino em série que caça meninos na rua e os mata em seu sítio. Entre os possíveis mortos pelo serial killer está o filho de Angelina Jolie, que está perfeita no papel da mãe. Como ela não se cala e vai buscando provas de que o menino que recebeu não é seu filho acaba sendo trancada em um manicômio, sob o argumento de que não queria reassumir, segundo o investigar corrupto, seu papel materno. Ao final da película a mãe segue em busca do filho desaparecido, visto que não foi encontrado corpo, portanto, para qualquer mãe segue existindo esperança de que o filho volte.

No final do filme eu lembrei das centenas de mães brasileiras que tiveram seus filhos roubados pela ditadura militar. E dos militares, que ironicamente comemoram no dia 1° de Abril uma Revolução, que nunca passou de um golpe militar. Na primeira vez que participei da blogagem coletiva eu falei sobre este tema, e volto a ele porque de todos os arquivos escondidos da ditadura militar do Brasil o direito de não enterrar seus mortos ainda é o mais difícil no meu entendimento, aliás, é o mais cruel! É a tortura institucionalizada da ditadura que ainda acontece.

Talvez ocorra com os nossos governantes (que ainda não abriram realmente os arquivos secretos) o mesmo que acontece com meu sobrinho, que assistiu o filme “A troca” e não gostou do fato da mãe seguir em busca do filho desaparecido. Creio que não seja necessário ser pai ou mãe para se sensibilizar com a dor destes pais que perdem seus filhos. Mas há quem não tenha esta capacidade e ainda que os direitos humanos ou qualquer outra  instituição internacional condene ou determine a abertura dos arquivos a dor de não saber aonde estão os restos mortais de seus entes queridos segue uma ferida aberta no peito de pais, mães, filhos, esposas. Já escutei várias mães dizendo que “ter um filho morto é uma dor inominável, mas ter um filho desaparecido deve ser muito pior, porque não se sabe como está, onde está, com quem está”. E é nestas palavras que eu penso todo ano quando vejo as notícias de comemoração do golpe militar, porque foi um golpe.

É muita crueldade manter familiares há mais de 40 anos sem saber o que aconteceu com seus entes. Muitas mães já morreram, em desgosto e desespero, sem ter podido dar um enterro digno aos filhos. Sim, existem cemitérios clandestinos, de onde poderão ser retirados os restos mortais e se realizar exames de DNA para determinar de quem se trata, mas e aqueles que foram jogados ao mar?

Tão cruel quanto manter familiares sem saber, sem poder sepultar seu entes queridos é um governo, dito de esquerda se eximir diante de tudo isto de cumprir as determinações a que foram condenados a cumprir. É cruel, numa solenidade de assinatura da anunciada e festejada Comissão da Verdade, cortar o discurso da viúva de um ex- deputado assassinado nos porões da ditadura.

Como isto pode acontecer no governo de uma ex-guerrilheira, de uma mulher que foi torturada e sofreu abusos? Compreendo que para governar é preciso ter jogo de cintura, realizar coligações, ceder alguns pontos. Mas atualmente o que vejo não é isto, mas uma completa mudança, parece até que nada das ideologias do passado restou. Chego a pensar que a verdadeira Dilma, a que tinha sonhos, ideologia, a que sofreu tortura sem entregar companheiros ficou perdida em algum lugar daqueles porões. Daqueles porões saiu uma Dilma modificada.  E infelizmente insensível aos apelos de companheiros do passado.

Todos nós que buscamos e pedimos a abertura dos arquivos e promovemos o #desarquivandoBR esperamos que o Brasil admita o erro que foi o golpe militar, reveja a Lei de Anistia e tome o período da ditadura como lição para que não volte a acontecer. Que os passos sejam dados com vagar, mas que sejam dados e sejam firmes para a abertura verdadeira. E principalmente, que acabe definitivamente esta tortura que ainda ocorre dos familiares que não podem dar um sepultamento digno a seus mortos.

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