“Escracho”: eu apoio

Por Carlos Fico 

O Levante Popular da Juventude surpreendeu a todos, no último dia 26, com os atos que promoveu, os “escrachos”. Esse é um tipo de manifestação conhecido na Argentina: um grupo de pessoas se reúne em frente à casa de alguém acusado de ter sido torturador e, através de pichações, o identifica diante de seus vizinhos.A ideia é constranger e denunciar: aquele pacato cidadão, que todos pensavam ser uma pessoa comum, tem seu passado comprometedor revelado.

Evidentemente, muita gente acha que esse tipo de manifestação é inadequado: e se a acusação for injusta? Além disso, pichar a casa de alguém parece ser algo violento.

Eu sempre tive dúvidas em relação a esses atos desde que ouvi falar deles na Argentina. Na segunda-feira, entretanto, quando soube das manifestações aqui no Brasil, fiquei positivamente surpreendido. A apatia da sociedade brasileira é tão grande que uma iniciativa como essa, partindo de jovens, indica que a velha máxima de que “somos um povo sem memória” não é tão verdadeira assim.

Eu também gostei da notícia de que o Levante Popular da Juventude não tem vínculos com os grupos que tradicionalmente tratam da ditadura: é bom que haja uma renovação.

Esses jovens partiram para uma ação concreta e a realizaram com muita eficácia. Foram espertos ao promover atos que não dependiam de muitas pessoas. Também conseguiram manter os preparativos em sigilo e surpreender.

Anos atrás, houve um acerto entre grupos da esquerda e militantes de direitos humanos para que a Justiça fosse abarrotada de ações contra os torturadores. Não deu em nada. Depois, veio a ação da OAB no Supremo que caiu como um “raio em céu azul”: não havia uma mobilização anterior, ninguém entrou com as ações para pressionar previamente a Justiça.

Os “escrachos” do Levante Popular da Juventude parecem querer nos dizer o seguinte: “nós não vamos esperar mais”.

Mesmo correndo o risco de publicamente me comprometer com o apoio a manifestações sociais violentas – que eu sempre condenei – sinto, intuitivamente, que devo apoiar os “escrachos”. É algo novo, que não se preocupou muito com o que iam pensar os que são tradicionalmente “donos” dessa agenda política. Os jovens põem o dedo diretamente na ferida. Eles podem estimular outros movimentos que também ainda não são fortes no Brasil, como os que exigem a mudança de nome de logradouros e monumentos que homenageiam líderes da ditadura.

Enfim, são atos pontuais, são controvertidos em função da violência, em termos de consequências concretas não são muito efetivos, mas nos fazem pensar. Saber que aquela pessoa comum pode ter sido um torturador tem um impacto tremendo. Esses atos nos falam da concretude da violência, de sua permanência até hoje.

São um barulho necessário. Deixe seu comentário.

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