“A ideia de não punição dos militares permanece na polícia violenta e racista”

Da Radioagência NP
Por Vivian Fernandes

O Levante Popular da Juventude, que reúne jovens do campo e da cidade de todo o país, organizou uma série de manifestações no último dia 26 de março. O tema era pela Comissão Nacional da Verdade e pela punição de torturadores, assassinos, estupradores e delatores da ditadura civil-militar brasileira.

(Baixar o áudio da entrevista)

O Movimento Levante Popular da Juventude, que reúne jovens do campo e da cidade de todo o país, organizou uma série de manifestações no último dia 26 de março. O tema era pela Comissão Nacional da Verdade e pela punição de torturadores, assassinos, estupradores e delatores da ditadura civil-militar brasileira.A principal forma de ação foi o “esculacho” ou “escracho”. Essa é uma forma de protesto em que se vai até o local onde mora ou trabalha o sujeito violador de direitos e se denuncia seus crimes, através de uma manifestação pacífica de colagem de cartazes, panfletagens, pichações e falas em carros de som.As ações ocorreram em dez estados. Nas cidades de São Paulo (SP), Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS), Fortaleza (CE), Aracaju (SE), Belém e Curionópolis (PA). Além de outras manifestações de agitação e propaganda em Curitiba (PR), Rio de Janeiro (RJ), Lages (SC), São Carlos (SP) e Salvador (BA).Em São Paulo, o “escracho” foi na empresa de segurança privada do ex-delegado e torturador David dos Santos Araújo. Em Fortaleza, a ação foi no escritório de advocacia do torturador José Armando Costa. O “esculacho” em Porto Alegre foi na residência do Coronel Carlos Alberto Ponzi, ex-chefe do Serviço Nacional de Informações. Entre outras ações pelo Brasil.

Em entrevista à Radioagência NP, o integrante do Levante Popular da Juventude, Édison Rocha Júnior, fala que essa luta vai além dos jovens e que “esse sentimento de justiça está na sociedade como um todo”. Negro e morador do bairro de Itaquera, zona leste da capital paulista, ele diz que “esta mesma ideia de não punição dos militares, permanece hoje nas periferias de São Paulo”, com uma polícia violenta e racista.

Radioagência NP: O que é o Levante Popular da Juventude?

Edison Rocha Júnior: O Levante Popular da Juventude nasce no Rio Grande do Sul, a partir de uma articulação da juventude urbana com alguns jovens de movimentos camponeses e do movimento popular urbano, isso em 2006. Ele se nacionaliza a partir de algumas iniciativas durante o ano de 2011, que vão culminar no Acampamento Nacional do Levante Popular da Juventude, em fevereiro de 2012. Aqui em São Paulo, o Levante é bastante novo, mas tem crescido. A gente tem cinco “células” (núcleos de base) divididas nas regiões da cidade. A “célula” é o espaço que dinamiza o Levante, o Levante só existe a partir das “células”.

Radioagência NP: Qual a opinião de vocês sobre a Comissão Nacional da Verdade?

ERJ: A Comissão da Verdade é muito tardia, se nós formos pensar, os povos têm direito à sua própria história. A importância [da Comissão Nacional da Verdade] é de nós sabermos a história, de saber o que aconteceu de fato no período da ditadura militar, para que a gente tenha acesso à história desse país. Existe uma lacuna do período que vai de 1964 até 1985, do qual a gente sabe fragmentos da história, mas ninguém sabe de fato o que aconteceu. Boa parte da história, principalmente o que atinge os militares que participaram do período, é ocultada. A gente sabe por fontes não-oficiais o que de fato aconteceu ali.

Radioagência NP: Por que debater a ditadura na atualidade? Qual a relação que isso tem com o cotidiano da população hoje, em especial da juventude?

ERJ: O mesmo militar que torturou um estudante e que não foi punido, esta mesma ideia de não punição dos militares, ela permanece hoje nas periferias de São Paulo. Se tem uma polícia paulista hoje que mata cerca de duas pessoas por dia, e onde ninguém é punido. Existe essa cristalização dos policiais e dos militares em geral, em que eles estão acima das leis, acima do bem e do mal, onde eles podem fazer qualquer coisa e não serão punidos. Isso ficou muito claro na ditadura, dentre todas aquelas barbaridades. E isso permanece hoje, com a polícia violenta e racista, é a mesma polícia que está matando os jovens negros na periferia de São Paulo. O período da ditadura afetou a história do país, inclusive na não busca pela história. Nós [jovens] fomos educados para achar que o que aconteceu no período não tem nada haver com o que nós vivemos hoje, que hoje é outro dia e que está tudo bem.

Radioagência NP: Qual foi o objetivo da atividade de agitação e denúncia do último dia 26 de março?

ERJ: O objetivo da atividade é pressionar por uma Comissão da Verdade, de verdade, e é mostrar que essas pessoas, essas figuras não podem ficar impunes. Um cara que estuprou, um que matou, um que torturou, não pode ficar impune. Eu acho que vai muito além dos jovens militantes, muito além do Levante Popular da Juventude, eu acho que esse sentimento de justiça está na sociedade como um todo. As pessoas não apoiam a impunidade e a maior parte nem sabe o que essa figura fez, se soubesse não conviveria com ele tão tranquilamente. A ideia de ações como essa, é mostrar de fato quem são essas pessoas e que elas merecem ser punidas por esses crimes.

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