Nação estuprada

Do blog Eu, todos os dias…
Por Eliana Klas

Eu nasci em meio à ditadura.

Cresci ouvindo o nome desta megera deformadora de almas que não era personagem de ficção.

Ela tinha nome e usava farda.

Lembro de meu pai falando dela, de seus gestos eloqüentes e indignados, quando falava de um ou outro amigo desaparecido.

Cresci sem entender um Estado que deveria nos proteger, todavia, canalhamente, torturou, estuprou e matou civis.

Era assim que eu via, era isto que eu entendia da tal ditadura.

De tempos em tempos eu ouvia noticias de que meu pai andava escrevendo coisas que poderiam prejudicá-lo.

E um pouco do medo dele se tornava meu também.

E eu nem sabia o que ele fazia de “errado”.

Era um medo que nascia sem que eu soubesse onde era seu berço.

Ouvia meu pai falando de amigos, anônimos, que sumiram, outros que pela tortura enlouqueceram.

Lembro de seus olhos marejados, a boca fechada em angustia, as mãos fechadas em dor.

Fantasma assustador era a tal ditadura.

Ela escondia pessoas e depois as devolvia, loucas, aleijadas, destruídas.

Ou ainda, jamais as devolveria…

As pessoas eram presas, e sob a tutela do Estado, desapareciam.

A ditadura matou, torturou e destruiu não só o individuo que levou sob o peso de sua mão.

Ela fez isto com os familiares de cada pessoa morta, torturada ou desaparecida.

Toda a família era despedaçada, e ainda é, mil vezes, sob o peso da injustiça.

Não quero imaginar o que é ter um(a) filho(a), um(a) irmão(ã), o(a) esposo(a) desaparecido(a).

Andar pelas ruas em uma vã esperança de tudo ter sido um pesadelo medonho e que, um dia, teu amor regressará.

Desaparecer na ditadura é deixar para quem procura a certeza da morte e a dor de nunca dizer adeus.

Não podemos seguir adiante sem jogar luz sobre este passado tão recente e que muitos querem que permaneça no escuro.

Precisamos juntar nossa voz em um só clamor pelo desarquivamento dos arquivos da Ditadura e pela revisão da Lei de Anistia.

O meu grito é o grito anônimo.

Não entendo de leis, mas me causa assombro uma lei ser usada para livrar assassinos e torturadores.

Quando menina a Lei da Anistia soava aos meus ouvidos como canção libertadora, hoje sinto que ela nivela vitimas e algozes.

Sequestro, tortura e assassinatos cometidos sob a proteção do Estado não podem ser crimes políticos.

Torturadores não podem andar sorrindo livremente enquanto famílias inteiras foram despedaçadas. Isto não pode se repetir.

A luta para que o passado não caia no esquecimento não pode ser somente dos familiares e das vitimas.

Hoje nossa voz deve ser a voz de todo um povo.

É urgente a criação de um mecanismo, uma norma, que não permita que o Estado anistie seus próprios agentes.

Permitir o esquecimento dos crimes de sequestro, tortura e assassinatos nos anos da Ditadura é o mesmo que permitir que o Estado estupre toda nossa nação, novamente, sob a sombra da lei.

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