Memórias de uma rua

Do blog Tempo de Espera
Por Mazeh Moreira 

De uma noite, me lembro muito bem. Havíamos acabado de mudar praquela rua. O basculante sem cortina deixa entrever a fraca luz dos postes da antiga Light. Particularmente, acaricio na memória o fato de meu pai e minha mãe estarem na rede ao lado, talvez por isso o susto tenha sido maior.

O zoar lá fora se parecia ao trovejar com raios. Muitas vozes, gritos. Berros, ordenavam “Abram a porta!” “Abram a porta!”. A curiosidade quase adolescente se apoderou do sobressalto do meu coração. Os vizinhos eram amigos, então o que queriam aqueles homens do exército com eles?

(Andar de bicicleta no final da tarde era um prazer imenso e era isso o que fazíamos nós, os quase adolescentes com cabeça de crianças, ainda. Sem o mundo tão próximo, como hoje, custávamos a sair da infância nas nossas inocentes folias.)

A rua fica em polvorosa. O pai, naquela casa, era um homem estudioso, fino no trato com as pessoas, mas tinha um jeito diferente de encarar a divisão de bens, na sociedade. Ele sempre dizia “os direitos são iguais, o justo é que todos tenham um teto para morar e comida no prato”. As pessoas do bairro eram muito simples, também queriam aquilo, mas não sabiam como encontrar, além do quê uma certa inércia, provocada pela falta, os possuía. E aquele homem representava uma força que parecia de todos.  Por isso, o sentimento de desprezo por aqueles homens armados, em caminhões-tanque, com metralhadoras, era franco. O homem era tão bom com todos!

(E a filha dele era minha amiga.)

Ele pulou a cerca do quintal, enquanto sua mulher abria a porta de camisola, bobs nos cabelos, olhar sonolento cheio de bocejos. Atrás, meio que escondidos e amedrontados os três filhos que a tia procurava poupar.

Dia seguinte, o murmúrio era geral, estavam procurando o vizinho porque ele era comunista. Comedor de criancinhas.

(Estudamos juntas até a 4ª. série do ginásio, eu e a filha daquele comedor de criancinhas, que nunca chegou perto de nós de garfo e faca na mão. Ele nos abordava com palavras e as palavras dele o levaram ao sumiço e a filha para algum país na antiga União Soviética. As palavras também o levaram, algum tempo depois, aos porões da ditadura militar.)

Depois disso, eles reduziram-se a nada. Foram apagados para nós. Ele, aquele vizinho, deve estar engavetado em algum arquivo secreto, donde nada transpira.

(Tanto tempo depois, ainda ouço o ladrar assustado dos cães, naquela noite.)

Anúncios
Esse post foi publicado em blogagem coletiva, posts da 5ª blogagem coletiva e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s