Do Calabouço ao Alemão, Edson Luís segue presente

Da Revista Vírus Planetário
Por Matheus Rodrigues Gonçalves 

Corpo do estudante Edson Luís é velado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em 28 de março de 1968

O dia 28 de março de 2012 marca os quarenta e quatro anos do assassinato, pela Polícia Militar do Rio de Janeiro, do estudante Edson Luís de Lima Souto, de 18 anos. Oriundo de família pobre vinda do Pará, o estudante foi morto com um tiro à queima-roupa durante um protesto contra o aumento no preço da alimentação do Restaurante Central dos Estudantes, conhecido como Calabouço, no Centro do Rio. Foi o primeiro de muitos estudantes assassinados pela ditadura.

Passadas quase cinco décadas desde o assassinato do estudante paraense e finda a ditadura civil-militar, nada mudou na concepção de segurança pública posta em prática não apenas no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil. Ainda hoje temos políticas (que deveriam ser) de segurança pública pautadas eminentemente em uma crescente militarização, aliada a um processo também em ascensão de repressão e criminalização da pobreza. E, tal como antes, a juventude (em especial a juventude negra e pobre) é o estrato social mais vilipendiado por tal lógica, pagando um alto preço em nome da “manutenção da ordem” e de uma suposta “segurança”.

Investe-se, cada vez mais em todo o país, na militarização das forças policiais e em políticas de enfrentamento que, no mais das vezes, acaba por servir tão-somente como instrumento de extermínio da população pobre. O Estado, por meio das forças policiais (e em alguns casos, como no Complexo do Alemão, das próprias Forças Armadas) ocupa com fuzis diversas comunidades, relegando a um segundo plano a necessidade de responder a necessidades humanas básicas, tais como o saneamento básico, a educação, a saúde, a cultura e o lazer. São constantes os casos de prisões arbitrárias, agressões e até mesmo torturas e assassinatos pelos agentes do Estado contra a população local (num revival  macabro dos tempos da ditadura de 64).  É a chamada criminalização da pobreza.

A isso soma-se o fato de que o pobre ­­— e mais ainda o pobre negro — é visto pelo Estado e pelas classes dominantes que o controlam, invariavelmente, como despojos sociais, e não poucas vezes, como quando ocorrem mortes em operações policiais, como “danos colaterais inevitáveis” (isso quando é impossível imputar a ele, o pobre, a condição de suspeito).

A bala que matou Edson Luís é, pois, a mesma que tirou a vida dos adolescentes Abraão Maximiano da Silva, de 14 anos, no Complexo do Alemão, Igor Cordeiro Manhães, de 13 anos, em Duque de Caxias, e Wendell Timóteo Rodrigues Nunes, de 14 anos, no Morro São Carlos, além das tantas outras vítimas dos chamados “autos de resistência” no período pós-ditatorial, que cometeram um único “crime”: serem pobres e, portanto, descartáveis para a sociedade de mercado.

Nesse sentido, pelos Edsons Luíses de ontem, hoje e amanhã, é dever de todos e de cada um lutar por uma nova concepção de segurança pública e por uma nova sociedade. Que, como certa vez disse o escritor uruguaio Eduardo Galeano, veja o outro como uma promessa, e não mais como uma ameaça.

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