Memória de um tempo onde lutar por seu direito é um defeito que mata

Do blog Na Transversal do Tempo
Post de Gilson Moura Junior

Não sei falar de ditadura. Não sei racionalizar, construir um argumento com base na História, em como se construiu um estado de exceção, em como se fez a aliança entre civis e militares, com sustentação das elite e suas indústrias, para erguerem um estado que atropelou a democracia.

Não sei manter o eixo sensível separado de forma a racionalizar o uso de tortura contra cidadãos que, organizados ou não, buscavam combater um estado de exceção.

O argumento milico de que “vivíamos em guerra contra milicias que buscavam instaurar uma ditadura comunista”, repetido ad infinitum por jornalistas desonestos a soldo de sei lá quem e pelo exercito de ignorantes que os segue, chega a ser patético em se tratando de qualquer estudo histórico sério que compare a dimensão do Estado Ditatorial com o das “milícias militantes” contra quem combatiam. Se aquele exército de Brancaleone tivesse o poder de derrubar o estado apoiado pela quarta frota estadunidense então a famosa incompetência militar da república de bananas estaria justificada.

O massacre dos anos de chumbo, que exterminou uma geração inteira de lideranças, que enfraqueceu a política tupiniquim sob todos os aspectos, que impactou a educação a ponto de gerarmos mais e mais autômatos que repetem ad nauseum um discurso irrefletido da ordem acima de qualquer coisa, este massacre de valores, pessoas, país, hoje é ressuscitado pelo silêncio oficial diante da responsabilidade do Estado Brasileiro diante de suas vítimas e pelo urro arrogante e autoritário, covarde inclusive, dos responsáveis por sua execução.

Os milicos em seus pijamas; os jornalistas da Veja, Folha e suas ditabrandas; os recriminalizadores dos “terroristas de esquerda” condenados por IPMs duríssimos, sumidos , torturados; todos berram contra uma “vingança” dos que atualmente estão no poder contra os vencedores de uma “batalha” que nos “defendeu do comunismo”.

Torturaram, sumiram com corpos, mataram jornalistas, puseram bombas em shows, sumiram com operários inocentes, tentaram organizar a explosão do Gasômetro no Rio de Janeiro, impedida pelo capitão Sérgio Macaco, a tudo fizeram e foram anistiados e ainda culpam as vítimas por seus atos e por vingança.

Não sei falar da ditadura. Não sei racionalizar a respeito.  Não consigo parar de pensar em Frei Tito, em Wladimir Herzog, em Manoel Fiel filho, em tantos outros presos, torturados, perdidos, morridos.

Não consigo fazer a relação necessária entre o que foi a  ditadura e a  reação conservadora a um ajuste de contas que sanasse essa ferida no corpo da democracia que é a inimputabilidade de quem cometeu crimes e mais crimes contra os direitos humanos no poder e a escravidão. Não consigo construir um argumento coerente que una como herança da ditadura a militarização das torcidas organizadas; o uso de tortura pelas polícias militares; o treinamento de policiais para agredirem manifestantes; o racismo oficial das policias que vinculam inclusive em seus cursos de formação o negro ao bandido e todo o arcabouço de destruição de uma lógica de país que não entenda como abuso a conquista de direitos.

Só consigo ter raiva e frustração de não ver no país a punição de quem tortura, mata, torturou ou matou. Só consigo ter uma raiva feliz de ver uma juventude com menos medo do que eu que vai na casa dos pulhas assassinos de companheiros e companheiras que tinham “Uma crença num enorme coração” e de ” humilhados e ofendidos, Explorados e oprimidos,Que tentaram encontrar a solução”. Todos viraram “cruzes sem nomes, sem corpos, sem data”.

É por estes companheiros que tento por aqui apoiar essa molecada valorosa que aprendeu com amigos e irmãos Argentinos, Chilenos, Uruguaios a ir pra rua e tornar a vidas de quem matou e  torturou, e matará e torturará, um inferno de vergonha. É por estes companheiros que tento aqui lembrar das vozes que “negaram liberdade concedida” e lembrar do tempo em que “lutar por seu direito era um defeito que mata”.

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