Em memórias – diálogo

Do blog Fragmentos de uma vírgula
Por Tadeu Francisco

Minhas mãos nuas amarradas, suadas em sangue. O estampido chegava aos meus ouvidos entre choro e riso. Não consigo lhe descrever com exatidão todos os estalos, ora do coturno marchador, ora do meu peito com seu coração surrado.

Não vi ao certo quem caminhava de um lado para o outro à minha frente, “maldita venda”. Mas pelo andar, sabia quem era, e lembro-me do seu rosto perfeitamente, cada pedaço de pele…

Eu estava trancado ali há alguns dias. Sentia sede e fome. Meus lamentos eram preenchidos com pancadas. Exalei meu desespero com muitos soluços, que me tornaram digno de pena... “Soluços são engraçados quando aos montes; o meu não era”.

Perdoe-me se estou sendo reticente. É a parte romanceada do que foi minha vida. Preciso contar o resto:

Naquele início de semana, não deveria ter falado tanto. Não sei o motivo do tamanho erro que me custou a vida. E pelo jeito, errei feio. Éramos bandeiras e brados, reuniões e ideais. Outrora preso em mim, senti-me liberto ao não concordar com aquela maré demagoga do pseudo discurso contratual entre a moral e o bem comum. “Libertei-me ao não concordar, e não vou me importar com as dores de agora”.

“A verdade triunfará”, como minha falecida mãe ensinou. Acreditava nisso.

E após dias de abandono completo, ainda amarrado, meus ouvidos voltaram a ouvir algo depois daquele silêncio gritante de tensão e medo. Senti uma luz entrando pela fresta da minha venda; e não era nenhum salvador.  Percebi depois que eram várias pessoas, e não apenas uma. Cuspiam ordens e trejeitos de respeito. Meu pulso doía muito. Senti o sangue escorrer e lambuzar a parte de trás do meu corpo. Eles queriam nomes e eu os tinha. “Não disse uma palavra, jamais diria”. Não proponho complô às custas de uma mísera pensão e um nome de guerra. Não queria nome de generais em praças públicas, misturando tais às brincadeiras infantis. Queria minha voz e meu jogo de cintura, queria minha bola e minha cachaça branca, queria meu gingado e meu jeito de fazer política, queria tolerância… “Eu só queria um colo, mesmo me sentindo mais fraco por isso”.

A hora havia chegado. Soltaram meus pulsos. Fomos a uma sala ainda menor. Falaram que eu seria julgado. Porém não houve defesa e sequer um banco duro. Fiquei de pé. Senti uma pancada forte na nuca, caí sem sentido. A venda se soltou e vi uma pessoa escondida na pequena janela na parte de cima da sala, ela tinha uma câmera e registrava tudo. Os generais não desconfiaram e continuaram com as pancadas. Senti alguns ossos se quebrando e já não diferenciava realidade de delírio.

Naquela saleta, dando um ar de tribunal, os milicos aprenderam bem a coisa toda. A lei superava qualquer outro direito humano, pois a recitavam antes de cada pancada como se fosse um musical.

Desfalecido, caí no chão gelado. Não demorou muito para o meu falecimento. Alguns minutos.

Não contem com a riqueza de detalhes o que se passa a partir daqui, pois não sou mais vida, apenas memórias ao vento. Alguns dizem que ainda não morri, por isso consigo lembrar tudo. Outros dizem que somente irei morrer de fato quando todos se forem. “Mas quando? Que todos?”

A minha esperança estava naquela máquina utilizada pela pessoa que a tudo registrou. Não sei quem era aquele bom corpo, mas sei que o prenderam dias depois. Estava morto e, provavelmente, em memórias, assim como eu.

Felizmente a câmera foi parar em boas mãos, em algum porão secreto que os meus ainda preservaram. Confiaram em um dos nossos para uma boa revelação das fotos. “Susto e surpresa…” As fotos registraram meu corpo morto e alguns militares fardados e eretos. Porém, nas imagens, os milicos não tinham rostos, somente os quepes, que flutuavam sobre seus pescoços. Não foi possível identificar ninguém. Atribuíram o feito a um feitiço. Mas bem sei que não é feitiço algum. Sei quem é cada pessoa que ali estava. Pena que sou só memória esgotada.

O que nosso Supremo visionário sabe de lei, eu sei de dor; e me custou muito sangue e uma barrada ideologia. Sei da importância de cada palavra que proferi àqueles infelizes. Era meu jeito de tentar vencer.

Passei a ser apenas papel. E, olhando aos céus, até onde meus cabelos ateus permitiram, soprei aos ventos e à minha nova religião delirante:

–  Senhor Julgador, não os perdoe, eles sabem o que fazem!

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